sábado, 2 de junho de 2007

O QUE SIGNIFICA LITURGIA


O vocábulo tem suas origens nas raízes gregas "léiton érgon" no significado de "obra pública" ou "serviço" prestado ao Estado ou à divindade segundo a livre iniciativa de um particular ou de um grupo.
No decorrer do tempo, essa iniciativa perdeu seu caráter livre, tornou-se institucionalizada ou imposta; assim, o vocábulo "leitourgia" do grego clássico tomou o significado definitivo de "serviço", mais ou menos obrigatório, prestado ao Estado, à divindade, a um particular.Na antiga Grécia teve sobretudo o caráter de serviço de utilidade pública e, para exercê-lo, era necessário ser muito rico.Era difundido numa centena de cidades gregas, mas especialmente em Atenas, onde todo ano era designado em cada tribo um número igual de "liturgos".As liturgias podiam ser periódicas, ou seja, recorrentes a cada ano, ou extraordinárias. Entre as periódicas, teve altíssima consideração a instituição da "coregia" já em 508 a.C. para a preparação de coros líricos ou trágicos no acompanhamento de representações teatrais, inclusive dramáticas. O "corego" vencedor obtinha como prêmio uma trípode de bronze, que depois oferecia ao deus Dionísio, colocando-a sobre "monumentos corégicos": assim é em Atenas a rua das Trípodes e, nas encostas da Acrópole, o recinto de Dionísio. Outra liturgia periódica foi a "ginnasiarchia", para o treinamento atlético dos jovens e a provisão dos aparelhos úteis para essa finalidade. Igualmente a "estiasi", banquete oferecido em reuniões públicas para festejar alegres eventos públicos, ou convites para celebrar a divindade à frente dos membros da tribo. Entre as liturgias extraordinárias, surgiu a que foi adotada em tempo de guerra: a "trierarchia", que consistia na preparação e manutenção de barco e tripulação por parte do comandante. Era liturgia muito onerosa porque podia custar de 40 a 60 minas. A seguir, esse encargo litúrgico foi distribuído entre os 1200 cidadãos mais ricos, divididos em 20 "simmorias", ficando cada uma delas incumbida de fornecer certo número de barcos. Essa instituição caiu em desuso quando desapareceu a marinha ática. Todavia, a instituição da liturgia manteve-se no campo esportivo e religioso nas cidades gregas até a época helenista e foi inclusive adotada também pelos romanos, para a administração de suas províncias. O caráter coletivo da liturgia teve grande valor social, porquanto permitia a unificação da comunidade, por meio da prática religiosa. Diferentemente da religiosidade individual, a coletiva tem necessidade de formas fixas de expressão: ações, gestos, palavras. Essas formas têm caráter mágico nas sociedades mais primitivas, mas possuem também a sacralidade própria dos mitos, assumindo, nas religiões politeístas, a forma de representação dramática da história dos deuses, consolidando na repetição sua validez e autoridade. De todas as liturgias das religiões antigas encontra-se testemunho na literatura ritual védica e bramânica na Índia, nas representações com grafito e pinturas nos templos e nas tumbas do antigo Egito, nos textos rituais babilônicos, nos poemas mitológicos destinados ao uso litúrgico descobertos em Ras Shamra, nas epígrafes sagradas documentadas juntamente com representações sacrificais e com cenas descritivas de festas por parte da civilização grega e romana. A liturgia tornou-se assim manifestação do culto público, sancionado e codificado no conjunto das cerimônias, das fórmulas e dos ritos necessários para expressá-lo. Esse significado permanece até hoje.
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