Fé além dos sentidos: a bem-aventurança dos que creem sem ver (Jo 20,19-31)
O chamado Domingo da Misericórdia, também conhecido na tradição oriental como Domingo das Miróforas, nos conduz a uma das passagens mais profundas do Evangelho: o encontro do Cristo ressuscitado com os discípulos e, de modo especial, com Tomé (Jo 20,19-31).
Este texto nos convida a uma reflexão central: o que Tomé perdeu?
A situação de Tomé
Ao observarmos o relato, percebemos alguns elementos importantes:
Tomé não estava presente quando o Senhor apareceu pela primeira vez (v. 24). Sua ausência o privou da experiência comunitária do Ressuscitado. Em seguida, vemos sua incredulidade (v. 25), não como mera negação, mas como uma exigência: ele deseja ver, tocar, comprovar.
Quando finalmente o Senhor se manifesta novamente (vv. 26-27), Ele se dirige diretamente a Tomé, acolhendo sua fragilidade, mas também conduzindo-o à fé. O resultado é uma das mais belas confissões cristológicas do Novo Testamento:
“Senhor meu e Deus meu!” (v. 28).
No entanto, a palavra final de Cristo amplia o horizonte:
“Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (v. 29).
Aqui está o ponto decisivo. Tomé representa não apenas um indivíduo, mas uma tentação constante da Igreja: a de condicionar a fé à experiência sensível.
A busca por ver: um retrato do nosso tempo
Vivemos em uma época marcada pelo desejo de evidências imediatas. Há um esforço constante para “ver” Deus:
Busca-se sinais extraordinários, experiências intensas, manifestações emocionais. Muitos querem sentir para crer. Outros procuram o sagrado apenas quando ele se apresenta de forma visível e impactante.
Essa postura não é nova — ela ecoa o coração de Tomé antes do encontro com o Ressuscitado. No entanto, quando a fé se apoia apenas nos sentidos, ela se torna frágil, dependente das circunstâncias.
Como já advertia Martinho Lutero, a fé verdadeira não se fundamenta no que vemos, mas na promessa de Deus: “A fé se apega à Palavra, não às aparências.”
A bem-aventurança dos que creem
Cristo proclama bem-aventurados aqueles que não viram e creram. Trata-se de uma fé que:
Não depende de sinais visíveis.
Não se sustenta em emoções passageiras.
Não está condicionada aos cinco sentidos.
Não exige provas constantes.
É uma fé que descansa na fidelidade de Deus.
Essa fé não é inferior à de Tomé — pelo contrário, é apresentada como mais plena. Ela nasce da escuta, como ensina o apóstolo Paulo:
“A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Rm 10,17).
O verdadeiro objeto da fé
O Evangelho conclui afirmando que os sinais de Jesus foram escritos “para que creiais” (Jo 20,31). Aqui encontramos uma verdade essencial: o objeto da fé não são os sinais, mas a Palavra que testemunha Cristo.
Os sinais têm sua função, mas não são o fundamento. O fundamento é a revelação de Deus nas Escrituras, que nos apresenta o Cristo vivo.
Nesse sentido, podemos afirmar:
a fé cristã não é construída sobre o que sentimos, mas sobre o que Deus disse.
Como ecoa a tradição reformada e também a espiritualidade monástica: a Palavra é o lugar onde vemos o Senhor. Não com os olhos do corpo, mas com os olhos da fé.
Uma fé que permanece
Há uma profunda liberdade quando compreendemos isso:
nossa fé não depende dos nossos sentimentos.
Sentimentos variam, experiências passam, sinais cessam. Mas a Palavra permanece.
Crer, portanto, é confiar mesmo quando não vemos. É permanecer mesmo quando não sentimos. É descansar naquilo que Deus revelou.
Assim, podemos dizer com segurança:
vemos o Senhor na Palavra, e pela Palavra cremos.
Que o Ressuscitado nos conduza a essa fé madura, firme e perseverante — a fé dos bem-aventurados que creem sem ver.