quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Quarta-feira de Cinzas e o Caminho da Quaresma

Quarta-feira de Cinzas e o Caminho da Quaresma

Arrependimento, deserto e esperança pascal

A Quarta-feira de Cinzas não inaugura apenas um novo tempo no calendário litúrgico; ela abre, sobretudo, uma porta interior. É um chamado silencioso e firme à verdade essencial da condição humana diante de Deus: “Tu és pó, e ao pó tornarás” (Gn 3,19). Não como palavra de condenação, mas como convite à lucidez espiritual e à humildade que salva.

As cinzas falam quando o coração se dispõe a escutar. Elas nos libertam das ilusões de autossuficiência, desmontam o orgulho religioso e nos colocam novamente no lugar certo diante do Senhor. Não se trata de um gesto exterior vazio, mas de um sinal profético que ecoa a Palavra:
“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (Jl 2,13).

Na vida espiritual, a Quarta-feira de Cinzas marca o início de um êxodo interior. Um deslocamento profundo do coração: do ruído para o silêncio, da superficialidade para a verdade, do ego para Cristo. É o dia em que a Igreja, pobre e peregrina, reconhece que vive exclusivamente da graça e que não se sustenta por méritos próprios.

A Quaresma, que se inicia neste dia, é um tempo de deserto. Mas não um deserto estéril — é o lugar onde Deus fala ao coração (Os 2,14). À semelhança de Cristo conduzido pelo Espírito (Mt 4,1), somos chamados a atravessar este tempo com seriedade, sobriedade e esperança. Não para nos perdermos em práticas vazias, mas para permitir que o Senhor nos reforme por dentro.

O caminho quaresmal se sustenta em pilares simples e profundos.

O primeiro é o arrependimento sincero. Arrependimento não é autopunição nem culpa paralisante; é metanoia, mudança de mente e de direção. É permitir que a cruz de Cristo revele nossas idolatrias ocultas e nos reconduza à liberdade dos filhos de Deus. A cruz não destrói o ser humano; ela o cura e o reconcilia.

O segundo pilar é a oração perseverante. Na Quaresma, somos chamados a orar com mais inteireza. Não necessariamente com mais palavras, mas com mais presença. O silêncio torna-se espaço sagrado; a Palavra, espelho da alma. Orar é permanecer diante de Deus como quem nada tem a oferecer, exceto o próprio coração.

O terceiro pilar é a simplicidade que gera caridade concreta. A espiritualidade quaresmal é encarnada. Ela toca os hábitos, o tempo, o corpo e as escolhas cotidianas. Aprende a dizer “basta”, aprende a repartir, aprende a servir. Não por ativismo religioso, mas como fruto natural de quem foi alcançado pela misericórdia.

Todo o caminho da Quaresma aponta para a Páscoa do Senhor. Caminhamos com Cristo rumo a Jerusalém, conscientes de que o percurso passa pela cruz — mas não termina nela. Cada renúncia quaresmal abre espaço para a ressurreição. Cada gesto de arrependimento prepara o coração para a vida nova.

Que a Quarta-feira de Cinzas e todo o tempo quaresmal nos conduzam a viver com menos ilusão e mais Evangelho, com menos pressa e mais fidelidade, com menos palavras e mais verdade. Não como observadores de um rito, mas como discípulos em contínua conversão, até que Cristo seja formado em nós (Gl 4,19).

Amém.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Análise do Ícone do Batismo do Senhor

 

Análise do Ícone do Batismo do Senhor

No centro do ícone, temos Nosso Senhor Jesus Cristo, envolvido completamente pelas águas do Jordão. Segundo Bento XVI, no seu livro Jesus de Nazaré, ele descreve sobre este ícone:

“O ícone do Batismo de Jesus mostra a água como um túmulo de água que corre, que tem a forma de uma escura caverna, que por sua vez é o sinal iconográfico do Hades, o reino dos mortos, o inferno. A descida de Jesus a este túmulo de água a correr, a este inferno, que o envolve totalmente, é a pré-realização da descida ao reino dos mortos: ‘Tendo mergulhado na água, prendeu o que era forte'(cf Lc11,22), diz S. Cirilo de Jerusalém. E S. João Crisóstomo escreve: ‘Mergulhar e emergir são a representação da descida ao inferno e da ressurreição’.”[1]

Cristo está despido, da mesma forma que foi crucificado. A frase que Jesus dirige a João para ser batizado “Convém que cumpramos a justiça completa” é a prefiguração da frase que irá proferir ao Pai  logo antes de ser crucificado “Não se faça a minha vontade, mas a tua”. Jesus se submete livremente à vontade do Pai por libertar a humanidade do pecado e conduzi-la à vida divina. Aquele sem pecado, aceitou ser batizado. Aquele sem culpa, aceitou ser crucificado!

À submissão de Cristo, o Pai responde, dizendo “Este é o meu Filho bem-amado, sobre o qual ponho todo o meu agrado”, e enviando seu Espírito Santo. É isso que indicam o semi-círculo que vemos na parte superior e o raio que desce dele sobre Jesus.

À esquerda, vemos o Venerável Precursor, João Batista, vestido de peles de camelo. É o homem velho, o Adão, que esconde sua nudez. O Batismo em Cristo é, pois, a passagem deste homem velho ao homem novo, o próprio Jesus.  João mostra-se atônito, com uma mão virada para o céu. Ele não é digno nem de desatar as sandálias de seu Mestre! O braço que estende para batizar Jesus torna-se o braço que nos aponta para “aquele que vem depois de mim” e “é maior do que eu”. É a ponte entre o Antigo e Novo Testamento.

Abaixo do Precursor, aparece um arbusto cortado por um machado. Refere-se ao tremendo aviso de João, que é um convite ao batismo e a uma vida santa depois do batismo: “O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo”.

À direita, temos anjos com as mãos cobertas, em sinal de adoração. Mais uma vez os anjos se admiram com a condescendência do Deus Todo-Poderoso!

Conclusão:

O ícone do Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma representação bastante fiel aos Evangelhos, sem recorrer a fontes apócrifas. Mas nem por isso é uma mera repetição: é uma outra forma de nos introduzir ao grande mistério de Cristo, através da visão.