O Sacramento dos Cinquenta Dias: A Páscoa segundo Santo Agostinho
Por: Irmão Rev. Edson
Mosteiro Terra Santa — Ordem Franciscana dos Servos Evangélicos (OFSE/OESI)
No silêncio da nossa vocação eremítica em Ji-Paraná, somos convidados a mergulhar na profundidade do tempo litúrgico. Se a Quaresma nos conduziu pelo deserto do arrependimento, a Páscoa nos abre as portas da felicitas — a felicidade eterna que não é apenas um sentimento, mas uma realidade teológica fundada na Cruz de Cristo.
Para o Bispo de Hipona, a Páscoa não termina no domingo da ressurreição; ela se estende por cinquenta dias de alegria ininterrupta, um período que ele denomina como o "Sacramento da Alegria".
1. O Caminho do Louvor: Canta e Caminha
Santo Agostinho nos ensina que o tempo pascal é uma antecipação do Reino de Deus. Enquanto a vida terrena é marcada pela labuta, estes cinquenta dias simbolizam o descanso que encontraremos na glória. Contudo, esse descanso não é inércia, mas movimento.
"Cantemos agora o Aleluia, não para gozar o descanso, mas para aliviar o nosso trabalho. Como costuma cantar o viajante: canta, mas caminha!" (Agostinho, Sermo 255).
Para nós, da OESI, o "Aleluia" deve ser orado com a vida. Cada tarefa no Mosteiro, cada momento de intercessão ao lado da Irmã Marisa, deve ser um eco da vitória de Cristo sobre a morte.
2. A Graça que Ressuscita o Coração
Fiel à tradição reformada, Agostinho nos lembra que a ressurreição de Jesus é a base da nossa justificação. Não celebramos apenas um fato histórico, mas a eficácia da Graça (Sola Gratia) que nos retira do estado de condenação e nos transporta para a liberdade dos filhos de Deus.
Viver a Páscoa sob a ótica agostiniana significa reconhecer que:
- A Cruz é o Trono: Não há ressurreição sem a Theologia Crucis. Paulo nos ensina que fomos plantados com Ele na semelhança da sua morte para que também o sejamos na da sua ressurreição (Rm 6:5).
- O Arrependimento produz Vida: Diferente do remorso que isola, o arrependimento pascal nos aproxima da comunidade dos santos, integrando as espiritualidades que nos sustentam — da disciplina beneditina à simplicidade franciscana.
3. A Unidade no Corpo de Cristo
A Páscoa é, por excelência, o tempo da Igreja. Agostinho utiliza o conceito de Totus Christus (o Cristo Total) para explicar que, quando Cristo ressuscitou, Ele não o fez sozinho, mas como cabeça de um corpo do qual fazemos parte. No Mosteiro Terra Santa, mesmo em nossa clausura e recolhimento, estamos em comunhão mística com toda a cristandade, proclamando que o Senhor vive.
Proposta de Vivência para o Tempo Pascal
Para os membros da nossa Ordem e amigos do Mosteiro, sugiro que estes cinquenta dias sejam marcados por:
- Leitura Orante dos Atos dos Apóstolos: Observando como a Igreja primitiva vivia a realidade da ressurreição.
- Oração de Gratidão: Substituir o peso da autocrítica pelo reconhecimento da obra completa de Cristo.
- Estudo das Fontes Primárias: Retornar aos Sermões de Páscoa de Agostinho e à Confissão de Augsburgo, reafirmando nossa identidade confessional e histórica.
Que a luz da ressurreição, que brilha de forma plena na face de Cristo Crucificado, ilumine nossos corações nestes dias.
Paz e Bem.
Referências:
- AGOSTINHO, Santo. Sermões sobre a Páscoa. (Sermões 224-260).
- BROWN, Peter. Agostinho de Hipona: Uma Biografia.
- Confissão de Augsburgo, Artigo IV (Da Justificação).