domingo, 24 de fevereiro de 2008

A LITURGIA NA TRADIÇÃO CRISTÃ


José Raimundo de Melo, S.J.


Como se deu a Inculturação da Liturgia ao longo dos séculos e em contato com os povos com os quais a Igreja se relacionou? Na página anterior, tratamos de como se formou na Igreja das origens os vários elementos que compõem a liturgia cristã. E vimos que a quase totalidade do seu complexo litúrgico proveio seja do culto dos judeus, seja da cultura e, um pouco mais tarde – quando não havia mais perigo de queda de cristãos na idolatria – também do culto dos pagãos. E isso bem indica que a Igreja já nas suas origens realiza uma verdadeira e própria inculturação. Ora, a partir de então e ao longo de toda a sua história a Igreja nada mais fez que ir se encarnando na existência das gentes com as quais se relacionou. Mas, como mesmo se deu tal processo? Vejamos a seguir alguns exemplos.


A Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, escrita por volta de 220, nos oferece um exemplo de inculturação quando descreve o rito de Iniciação Cristã do que entra a fazer parte da Igreja. Este recebe no momento da comunhão, além das espécies eucarísticas, leite e mel para significar “a realização da promessa feita aos patriarcas, de que lhes daria uma terra em que corre leite e mel”. O neófito, atravessando o rio Jordão por meio do batismo, entra na terra prometida e passa a gozar de seus frutos. Mas tal costume de dar leite e mel ao recém nascido já era usado pelos romanos antes do cristianismo para indicar que a criança era bem-vinda na família e como proteção contra os espíritos malígnos. Temos aí um importante testemunho de inculturação nesta época.


Muitas outras inculturações vão aparecer a partir do Edito de Milão de 313, pelo qual Constantino deu paz à Igreja. É o caso da eucaristia, até então celebrada nas casas particulares dos cristãos ou domus Ecclesiae, que passa sobretudo às Basílicas, os edifícios públicos do império romano cedidos agora às novas necessidades de grandes espaços por parte da Igreja. Também os cerimoniais pontificais e as vestes litúrgicas passaram a ser uma adaptação daqueles utilizados na corte imperial. Mas não tardará a aparecer no Sacramentário Veronense, na oração de ordenação de bispos, presbíteros e diáconos, termos como grau, honra e dignidade, próprios do ambiente imperial romano. E ainda vemos a utilização pelos cristãos, mas só por algum tempo, do “refrigerium” dos pagãos, que consistia numa refeição realizada junto do túmulo, na qual uma quantidade de comida e bebida era reservada para o morto.


A Igreja desses primeiros séculos realiza a sua inculturação aos costumes dos povos seja pelo método da “assimilação” ou da “reinterpretação”, seja pelo da “substituição”. Pela “assimilação” ou “re-interpretação” ela simplesmente tomava práticas próprias dos pagãos nas quais podia inserir um significado cristão e as adotava na sua liturgia. Exemplos: o uso de orações do tipo das atuais ladainhas, provenientes do costume romano de invocar a divindade com muitas intercessões; o beijo do altar e de imagens sacras, derivadas de gestos de reverência pagãos; a utilização da veste branca e da vela batismal pelos recémbatizados, que deriva do uso desses símbolos pelos neófitos das religiões mistéricas; o costume de orar voltado para o Oriente, influenciado pelas religiões solares mediterrâneas.


Já pelo método da “substituição”, os cristãos faziam coincidir a data de certas práticas do culto pagão, sobretudo festas, com festividades cristãs, até que a comemoração cristã aí inserida acabava por abolir a pagã. Grande exemplo desta tática foi a substituição da festa do deussol invencível, celebrada pelos romanos em 25 de dezembro, pela festa do Natal do Senhor, posta pelos cristãos nesta mesma data. Também a festa da Cátedra de São Pedro, 22 de fevereiro, tomou o lugar de uma comemoração dos antepassados romanos, representados pela sua cadeira e a festa da Purificação de N. Senhora ou das Candeias substituiu as Lupercálias romanas, nas quais muitos giravam despidos e com tochas nas mãos numa corrida noturna que acabava em grandes excessos. Mas um precioso exemplo de respeito e abertura diante dos costumes litúrgicos dos outros povos nos é referido numa carta endereçada pelo papa Gregório Magno (590-604) a Agostinho de Cantuária († cerca 605), evangelizador da Inglaterra, como resposta a uma outra em que Agostinho se lamenta ao papa pela independência demonstrada pelos bispos da Gália, que não observam uniformidade com a Igreja de Roma quanto à celebração da missa. Na sua resposta o papa mostra bem que fidelidade às tradições litúrgicas não se confunde com fidelidade ao rito romano. Ele, na verdade, não só não censura as diferentes práticas encontradas e relatadas por Agostinho, como ainda convida aquele evangelizador a assumir seja de Roma, seja da Gália ou de outra Igreja qualquer, os usos e costumes que considerar dignos de enriquecer ainda mais a liturgia da recém criada Igreja inglesa, posta sob a sua direção.


A partir do séc. VIII dá-se a migração da liturgia romana para as terras franco-germânicas. Chegando lá esta liturgia prática, austera e breve dos romanos vai receber forte influxo daqueles povos, tornando-se uma liturgia dilatada e cheia de muitos simbolismos, bem ao gosto dos franceses e alemães de então. Voltando a Roma tempos mais tarde, tal liturgia ostentará um grande número de bênçãos, exorcismos, exposições, seqüências e, junto a isso, o declínio da participação ativa do povo, o hábito das missas privadas, devoções aos santos, orações pessoais, confissões durante a missa etc. A partir do séc. XIV e até o período do Barroco vai ainda marcar a liturgia o aparecimento em muitos países da Europa do drama litúrgico que, em meio à grande ignorância da liturgia, garante de qualquer modo uma certa catequese ao povo. Estas cenas, recitadas na igreja e até durante a Missa, interpretavam eventos comemorativos das festas litúrgicas, da Missa, do Ofício Divino etc. Mas quando cenas indecorosas começaram a aparecer, muitas dramatizações foram retiradas das igrejas e levadas para a praça pública. Algumas dessas cenas litúrgicas, através dos missionários espanhóis, alcançaram até mesmo a América Latina, onde sobrevivem ainda hoje.


Os séculos XVII e XVIII ofereceram também novidades a nível de desejo de uma maior participação do povo no culto. Foi o caso do Jansenismo, que apresentou uma certa retomada do conceito de embléia e, entre outras coisas, lutou pelo uso da língua vernácula na liturgia. Identificado, porém, como um movimento atrás do qual se escondia a reforma protestante, foi desprezado e bem cedo condenado. Já o chamado Iluminismo católico, que teve a sua mais alta expressão no Sínodo de Pistoia (1786), lutou pela simplicidade e inteligibilidade dos ritos e dos textos e pelo valor da comunidade dos fiéis. Todavia, eivado de um exagerado racionalismo e de erros doutrinais, não só foi condenado, como também atrasou, por mais de um século e meio, o necessário processo de reformas, que enfim chegam com o Vaticano II. Não podemos, porém, deixar de recordar, mesmo que só de passagem, a importante tentativa de inculturação por parte de jesuítas na China do século XVII. Estes missionários usaram palavras chinesas para exprimir conceitos cristãos e aproveitaram do culto que o povo prestava a seus antepassados para incluir aí a adoração ao verdadeiro Deus. Os jesuítas, porém, cedo são denunciados como promotores de atos de idolatria, iniciando-se uma longa controvérsia que dura mais de cem anos (começa, com efeito, em 1610, logo após a morte de Matteo Ricci e se conclui apenas em 1742, com a publicação da Bula papal Ex quo singulari) e teve como desfecho a proibição dos jesuítas esenvolverem suas atividades missionárias na China. Acima tivemos alguns exemplos de como se realizou ao longo da história a inculturação da liturgia aos costumes dos povos. Um tal processo, pois, não é novo na Igreja; ele tem mesmo a idade da Igreja! Que estes poucos testemunhos concorram para nos ensinar a inculturar com abertura, coragem e fidelidade, a liturgia aos costumes dos nossos povos e ao modo de ser próprio das pessoas do nosso tempo.


JOSÉ RAIMUNDO DE MELO, é padre jesuíta, baiano, Doutor em Liturgia pelo Instituto Santo Anselmo, de Roma.

Na Igreja das Origens


José Raimundo de Melo, S.J.


Como a Igreja, também a liturgia tem uma sua história, que se foi formando e se desenvolvendo no decurso dos séculos cristãos. Trata-se de uma longa história, toda ela marcada por encarnações, adaptações, criatividades e inculturações, pois o cristianismo não nasceu já adaptado e assimilado aos diversos povos, mas teve necessidade de ir se encarnando nas várias culturas com as quais entrou em contato.


Desta forma, a Igreja, que vai surgir como um pequeno grupo em meio ao ambiente judaico, de início esteve profundamente marcada pelos modos e costumes próprios do judaísmo. E quando começa a se espalhar pelo mundo, por vezes sente necessidade de renunciar a alguns elementos judaizantes e, outras vezes, obedece ao imperativo de se adaptar aos costumes dos povos com quem se relacionou. Mas além de se adaptar aos povos, ela também teve que se adaptar às várias épocas culturais, aos vários séculos na evolução desses povos. Por ser a liturgia um dos aspectos mais exteriores e representativos da Igreja, capaz de apresentála como estandarte aos de fora (cf. SC 2), será ela a primeira a ter que realizar essa encarnação e adaptação na vida das gentes e nas várias épocas culturais.


A liturgia cristã que foi se estruturando na origem da Igreja e que conheceu inúmeras vicissitudes no decorrer dos anos, que a partir do Concílio de Trento e ao longo de quatro séculos se tornou rígida e intocável e que atualmente sente dificuldades de se encarnar nas culturas, sobretudo naquelas emergentes, como mesmo esta liturgia se formou e se organizou na Igreja? Responder a esta questão significa, de certa forma, ir colocando as bases de reflexão para um possível processo de inculturação da liturgia no hoje.


As práticas litúrgicas da Igreja das origens, como a celebração da eucaristia e os ritos sacramentais, a oração em comum e a pregação, estão ligados ao exemplo ou à recomendação de Jesus. Tais práticas, porém, não foram criadas por ele do nada, mas Jesus as tomou do culto hebraico de sua época. A Igreja apostólica segue nesta linha, e para as fórmulas não realizadas por Jesus, busca inspiração no culto dos hebreus. Já nas comunidades cristãs oriundas do paganismo, pouco a pouco vão entrar elementos provenientes inicialmente da cultura e mais tarde também da religião helênica e romana. É possível identificar a origem de muitas desses práticas. Vejamos a seguir que elementos na liturgia da Igreja provém do judaísmo, que outros provém do helenismo e o que nela é novo e original.


É de origem judaica, procedente do culto matutino da sinagoga, a Liturgia da Palavra composta por leituras, homilia e canto de salmos. Também a grande oração de Intercessão (ou Oração Universal) que precede a liturgia Eucarística, e que vem da oração judaica «dos 18 pedidos». O ciclo da semana de seis dias e a festa semanal, transferida logo cedo do sábado para o domingo. A festa de Páscoa e Pentecostes e ainda a idéia de santificação do curso anual do tempo e das estações com um série de festividades religiosas: o Ano Litúrgico. A oração da manhã e da tarde (depois chamadas de Laudes e Vésperas), as horas diurnas (Terça, Sexta e Nona), as orações noturnas e ainda a contagem do dia litúrgico de uma tarde a outra ou de véspera a véspera. Ainda o uso de salmos de louvor na oração da manhã e as exortações que antecedem algumas orações, como “Corações ao alto”, “Oremos”, “Demos graças ao Senhor nosso Deus”; as doxologias e o uso litúrgico do “Santo, santo, santo”, que é tirado de Is 6,3; aclamações litúrgicas como Amém, Aleluia, Hosana, E com o teu espírito. A oração paradigmática, que implora ajuda e salvação apelando aos grandes modelos (paradigmas) da História da Salvação. O importante gesto da imposição das mãos. E ainda as lavagens, as imersões e emersões, os “batismos”, que eram conhecidos tanto pelo AT, como pela comunidade de Qumrã. João Batista os utilizou, Jesus mesmo se deixou batizar e os cristãos o assumem "no nome do Senhor Jesus", para participar de sua morte e ressurreição.


De origem helênica, em especial das religiões mistéricas, proveio a idéia que levou ao estabelecimento do rito da Iniciação Cristã com seus exorcismos, unções, celebração na noite pascal e, com isso, o uso das vigílias. Também a disciplina do arcano (isto é, não revelar aos de fora da Igreja o conjunto dos seus ritos e fórmulas sagradas). O submeter as fórmulas de oração às leis retóricas da simetria e conclusão rítmica do período. Expressões litúrgicas do tipo: eucaristia, eulogia, hino, vigília, anamnese, epiclese, mistério, prefácio, cânon, exorcismo, advento, ágape, epifania, doxologia, aclamação, e a própria palavra liturgia.


Outras expressões como: Deo gratias, Kyrie eleison, Dignum et iustum est; e aquelas que reclamam a eternidade: em eterno, de eternidade em eternidade etc. Orações do tipo da ladainha e, de acordo com o exemplo judaico de rezar voltado para o templo de Jerusalém, o uso de rezar em direção ao Oriente e a conseqüente orientação das igrejas naquela direção.


Mas a Igreja apostólica, também cria formas novas de expressão: o batismo “no nome de Jesus”; a fração do Pão ou Ceia do Senhor, o memorial de sua morte; a imposição das mãos, mas com o sentido de conferir o Espírito, junto ao poder de presidir a comunidade eclesial; a unção dos enfermos.


Em resumo, na formação das primitivas expressões litúrgicas cristãs serviram como modelo, tipo e ponto de partida formas religiosas, rituais e culturais encontradas tanto no judaísmo, como no helenismo. Mas encontramos também formas novas, próprias dos cristãos. Por outro lado, algumas práticas do Antigo Testamento são abolidas, como o templo e os sacrifícios, o sábado, a circuncisão e muitas cerimônias. Assim pode-se dizer que a novidade do culto cristão não está na forma, mas no conteúdo. Muitas vezes conservando formas já existentes, os cristãos vão reinterpretálas, dando-lhes um novo sentido. Este conteúdo, este significado diferente, encerra a novidade cristã. Jesus e cristãos tomando elementos do rito judaico e colocando-os para a comunidade cristã de “forma nova”, realizam uma verdadeira inculturação.


Ora, assim como a liturgia cristã se formou a partir de contribuições provenientes de tantas regiões, povos e épocas diversas e não passa pela cabeça de nenhum de nós a idéia de que os primeiros cristãos, acolhendo elementos já existentes ou realizando a adaptação do rito à cultura, foram infiéis ou irresponsáveis frente à Igreja que lhes foi confiada pelo Senhor, da mesma forma os cristão hoje, edificados por tão belos exemplos, podem a justo modo, após examinarem diligentemente e com prudência as várias situações e respeitando a “substancial unidade do rito romano” (cf. SC 38), proceder a uma profunda e frutuosa adaptação do rito às culturas e índole dos vários povos. E isso se faz tanto mais exigente quanto sabemos ser verdadeiro direito de toda Igreja local exprimir o culto cristão mediante formas culturais próprias. A liturgia é sempre ligada à expressão de uma Igreja local. Cada forma litúrgica é ligada a uma certa cultura, a um contexto cultural, e dentro deste contexto deve se exprimir. O desenvolvimento da forma litúrgica tem um valor relativo porque este desenvolvimento é contingente. Não se pode valorizar como imutável, definitivo, o que é simples resultante de um desenvolvimento.


Como “a liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes susceptíveis de mudança” (SC 21), trata-se de determinar aquilo que no rito romano constitui sua unidade substancial (e, portanto, não pode ser mudado) e aquilo que, por natureza, é passível de modificações, para atuarmos o necessário processo da inculturação litúrgica. Procedendo assim estaremos simplesmente sendo fiéis não só à inteira história da Igreja como, em especial, às exigências de inculturação já previstas pela reforma litúrgica do Vaticano II e resumidas nos artigos 37-40 da Constituição Sacrosanctum Concilium.


JOSÉ RAIMUNDO DE MELO, é padre jesuíta, baiano, Doutor em Liturgia pelo Instituto Santo Anselmo, de Roma

O TERMO LITURGIA


O Termo Liturgia

José Raimundo de Melo, S.J


O termo «liturgia», hoje utilizado quase que exclusivamente para descrever o ato de culto, não nasceu em ambiente religioso e nem mesmo é oriundo do mundo do Antigo Testamento, mas vai aparecer por primeiro na Grécia antiga, pertencendo pois à língua grega clássica, como palavra composta por duas raízes: leit (de laós = povo) e érgon (= ação, empresa, obra). A palavra assim composta significava naquele ambiente em que nasceu: “ação, obra, empresa para o povo ou pública”. Por «Liturgia» se entendia um serviço público feito para o povo por alguém de posses. Este realizava tal serviço ou de forma livre ou porque se sentia como que obrigado a fazê-lo, por ocupar elevada posição social e econômica. Neste sentido eram «Liturgias» a promoção de festas populares, dos jogos olímpicos ou o custeio de um destacamento militar ou de uma nave de guerra em momentos de conflitos.


Na época helênica a palavra conhece uma evolução no seu sentido e começa a designar seja um trabalho obrigatório realizado por um determinado grupo, como castigo por alguma desobediência ou como reconhecimento por honras recebidas, seja o serviço do servo para com seu senhor ou o favorzinho de um amigo para com o outro. E aqui vemos o termo perder aquele caráter de serviço público, para a coletividade, que é, como vimos, um seu componente essencial.
Todavia, nesta mesma época helênica, começamos a ver o termo «Liturgia» sendo usado ao mesmo tempo e cada vez mais em sentido religioso-cultual, para indicar o serviço que algumas pessoas previamente escolhidas prestavam aos deuses. E é precisamente neste sentido que ele vai entrar no Antigo Testamento e, tempos mais tarde, será acolhido no mundo cristão.


De fato, no texto da Bíblia traduzida para o grego e chamada tradução dos LXX, «Liturgia» aparece cerca de 170 vezes, designando sempre o culto prestado a Javé, não por qualquer pessoa, mas apenas pelos Sacerdotes e pelos Levitas no Templo. Já quando os textos se referem ao culto prestado a Javé pelo povo, a palavra utilizada pelos LXX não é jamais «Liturgia», mas latría ou doulía. Isso por si só já nos indica que os tradutores dos LXX fizeram uma escolha consciente deste termo «Liturgia», dando-lhe um sentido técnico preciso para indicar de forma absoluta o culto oficial hebraico devido a Javé e realizado por uma categoria toda particular de pessoas especialmente destinadas a isso.


No Novo Testamento o termo vai aparecer apenas 15 vezes, mas uma só vez em sentido de culto ritual cristão (cf. At 13,2). E a razão de um tal desprezo dele pelo NT parece dever-se exatamente ao fato de «Liturgia» recordar de maneira muito clara e direta os sacrifícios realizados no Templo e que foram tantas vezes e de tantos modos duramente criticados pelos profetas de Israel, por não serem verdadeira expressão de amor e agradecimento a Deus pelos benefícios recebidos ou sinal de conversão dos pecados. Nestes sacrifícios, em geral, não aparecia o coração do homem; e este tipo de culto Deus não pode aceitar (cf. Sl 39,7-9; 49,14.23; 50,18-19; 68,31-32; 140,2; Is 1,10-20; Jr 7,3-11; Os 6,6; 8,11-13; Am 5,21-25).


No cristianismo primitivo o termo também resiste a aparecer. Os cristãos da origem adotando o «espiritualismo cultual», isto é, aquele tipo de culto realizado em “espírito e verdade”, não mais ligado às instituições do sacerdócio ou do templo, seja o de Jerusalém ou de Garizim (Jo 4,19-26), não sentem a necessidade de utilizar uma palavra que havia servido para identificar explicitamente um culto oficial, feito segundo regras precisas, tal qual era o sacrifício hebraico, vazio de espírito e rico de exterioridade. Mas já na Igreja pós-apostólica, «Liturgia» vai perdendo parte de seu aspecto negativo e começa a distinguir os ritos do culto cristão, como se vê em documentos como a Didaché (+- 80-90) e na I Carta de Clemente Romano aos Coríntios (+- 96).
No Oriente grego, o termo esteve sempre em uso para designar a ação ritual, muito embora hoje em dia indique sobretudo a celebração da Eucaristia segundo um determinado rito, como por exemplo, a “Liturgia de São João Crisóstomo”, a “Liturgia de São Tiago” etc. No Ocidente latino, porém, o termo «Liturgia» será completamente ignorado e só vai aparecer no séc. XVI, por causa dos contatos criados entre o Renascimento e as antigas fontes gregas. Mas devemos aguardar a primeira metade do séc. XIX para vê-lo utilizado no linguajar eclesiástico oficial latino com Gregório XVI, o que continua com Pio IX e sobretudo com Pio X. Por ocasião do Movimento Litúrgico do início deste século este termo será usado com grande força, sendo que o Concílio Vaticano II o consagrará nos seus diversos documentos, em especial na Constituição sobre a Liturgia Sacrosanctum Concilium, entendendo sempre por «Liturgia» “o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo” (SC 7), ou o “cume em direção ao qual se dirige toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte da qual sai toda a sua força” (SC 10).


JOSÉ RAIMUNDO DE MELO, é padre jesuíta, baiano, Doutor em Liturgia pelo Instituto Santo Anselmo, de Roma.

domingo, 19 de agosto de 2007

RITO ANGLICANO


O rito anglicano +José Moreno


O Livro de Oração Comum (LOC) constitui-se no manual de liturgia das igrejas anglicanas ao redor do mundo. Foi composto por Thomas Cranmer, arcebispo de Cantuária, e oficializado na Igreja da Inglaterra em 9 de junho de 1549 (domingo de Pentecoste).


Esteja ligada à Comunhão Anglicana ou a alguma jurisdição independente, uma Igreja expressará a sua identidade anglicana de forma especial mantendo um estilo litúrgico de culto de acordo com o LOC, o qual contém todos os ritos e cerimônias necessários à continuação e atualização do sacerdócio de Cristo no mundo. No Brasil, temos dois LOCs atualmente: o da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) e o da Igreja Episcopal Reformada do Brasil (IERB).
O rito anglicano tem origem principalmente no Rito de Sarum, que era usado na catedral de Salisbury, atribuído ao bispo Osmund (1085 d.C.). Cranmer inspirou-se também em outras liturgias que estavam em uso na Inglaterra de sua época: Hereford, Bangor, York e Lincoln. Mas no prefácio do LOC fez constar: "...onde antes havia tanta diversidade [...] a partir de agora, todo o Reino terá um só rito".
Há de se destacar que, de acordo com o bispo Stephen Neill, em Anglicanism, o caráter reformado (protestante) do rito estabelecido por Cranmer se deve à influência dos escritos luteranos com os quais o reformador inglês teve contato quando jovem, nas proveitosas reuniões na Taberna do Cavalo Branco, em Londres.
Em nosso uso, na Igreja Episcopal Anglicana Livre, o culto eucarístico, também chamado missa ou comunhão, segue as linhas gerais estabelecidas pelo LOC e pelo anglicanismo histórico. A missa, antes de tudo, é uma refeição, tendo sido instituída na última ceia pascal (Mt 26.26-29); nela, recebemos o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo oferecidos em sacrifício no Calvário, de uma vez por todas, para a remissão dos nossos pecados. Esta celebração é repetida perpetuamente em memória de Cristo (Lc 22. 19). Na perspectiva bíblica, memória (anamnese) não é apenas lembrar-se de um fato passado, mas torná-lo presente sacramentalmente; por isso, quando comemos e bebemos, alimentamo-nos do verdadeiro Corpo e do verdadeiro Sangue de nosso Senhor e atualizamos a sua obra em nós, sem, contudo, repetir o sacrifício.
O nosso culto é composto de quatro momentos principais: (1) os ritos iniciais; (2) a liturgia da Palavra; (3) a liturgia eucarística; e (4) os ritos finais. Há partes fixas, que se repetem a cada celebração e partes móveis, que permitem plena liberdade de expressão diante de Deus, criador e sustentador do universo.
Os ritos iniciais começam com o cântico e a procissão de entrada; o sacerdote ocupa o seu lugar, saúda o povo, pronuncia as palavras de acolhida; conduz o povo ao louvor e à confissão de pecados e pronuncia a absolvição.
A liturgia da Palavra consta das leituras na seguinte ordem: Antigo Testamento, Salmo, Novo Testamento e Evangelho. As leituras são determinadas pelo calendário litúrgico e são extraídas do Lecionário do LOC. Em seguida, vem a homilia ou sermão.
Para a liturgia eucarística, o LOC prescreve os ritos I e II e há também duas orações eucarísticas alternativas. Na Igreja Anglicana Livre é permitido diversificar os ritos, observados os Trinta e Nove Artigos de Religião:
"Não é necessário que as tradições e cerimônias sejam em toda parte as mesmas, ou totalmente semelhantes; porque em todos os tempos têm sido diversas e podem ser alteradas, segundo a diversidade dos países, tempos e costumes dos homens, contanto que nada se estabeleça contrário à Palavra de Deus. Todo aquele que por seu particular juízo, com ânimo voluntário e deliberado, quebrar manifestamente as tradições e cerimônias da Igreja que não sejam contrárias à Palavra de Deus e se achem estabelecidas e aprovadas pela autoridade comum, (para que outros temam fazer o mesmo) deve ser publicamente repreendido, como quem ofende a ordem comum da Igreja, fere a autoridade do magistrado e vulnera as consciências dos irmãos débeis. Toda Igreja particular ou nacional tem autoridade para ordenar, mudar e abolir as cerimônias ou ritos da Igreja, que tenham sido instituídos unicamente pela autoridade humana, contanto que tudo se faça para a edificação" (Artigo 34).
Os ritos finais constam da bênção e do envio ao mundo em missão. A Igreja militante, até agora reunida, se dispersa para fazer Cristo conhecido onde ele ainda não foi anunciado (cf. Rm 15.20). IGREJA EPISCOPALANGLICANA LIVREDiocese Brasil Sudeste

quarta-feira, 27 de junho de 2007

LITURGIA DAS HORAS


Ofício Divino

Ofício Divino, ou Liturgia das Horas, é a oração pública que os clérigos fazem em nome da Igreja. Leva este nome por ser considerado o cumprimento de um dever (em latim, officium) para com Deus. É chamado também de Liturgia das Horas por repartir-se em diferentes horas do dia.


Origens
Os judeus e outros povos antigos contavam o dia desde um pôr-do-sol até outro. Destarte, o sábado começava no entardecer da sexta-feira. Para fins civis, o dia e a noite constavam, respectivamente, de 12 partes iguais: a noite, do pôr-do-sol ao nascer; e o dia, do nascer ao pôr-do-sol.


As 12 horas da noite se dividiam em 4 vigílias, de 3 horas cada uma: 1a. vigília, das 6 da tarde às 9 da noite; a 2a. vigília, das 9 à meia-noite; a 3a. vigília, da meia-noite às 3 da madrugada; e a 4a., das 3 às 6. Começava então dia, sendo que as horas contavam-se a partir das 6 da matina. Assim, primeira hora (ou prima), era as 6 da manhã; sexta hora, o meio-dia; e nona hora, as 3 da tarde.


Conformada com esta divisão do tempo, a Igreja cristã estabeleceu dois ofícios: o Ofício da Noite e o Ofício do Dia. Aquele tinha o nome de Ofício das Vigílias, com três noturnos. Seguia-se-lhe a prece da aurora ou da manhã, chamada por isso Matinas. Mais tarde, deram às Vigílias o nome de Matinas, e às Matinas o de Laudes.


O Ofício do Dia constava de Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.
Também, nos dias atuais, os leigos são chamados a oração da Liturgia das Horas em suas paróquias, em suas comunidades e,com grande amor, respondem a essa chamado, orando em unidade com a Igreja do mundo inteiro o Ofício Divino.


Inspirados por Jesus, que Ele mesmo, como bom Judeu, recitava os salmos diariamente e os tinha como parte integrada de sua vida.
Fonte: Wikipedia. in Liturgia das Horas

ARTE E LITURGIA 40 ANOS APOS O VATICANO II



Os elementos da celebração e a adequação solicitada pelo Concílio, depois de 40 anos do S.C.A reforma inacabada Já se passaram muitos anos desde a publicação dos decretos conciliares, o conjunto dos quais deveria ter aperfeiçoado a proposta que havia sido veiculada pela grande reforma conciliar e oferecer motivações para facilitar a purificação da mentalidade religiosa do povo cristão, sobre a qual, o tempo havia lançado escórias de uma espiritualidade não sempre em sintonia com a espiritualidade litúrgica da Igreja (conf. Regno - Att. 4, 2002, 124).De fato, nos anos pós-conciliares o termo liturgia aparece na boca de todos e em quase todos os artigos de caráter religioso. Todas as mudanças efetuadas nas estruturas das Igrejas, também as mais extravagantes, foram justificadas pela exigência das adaptações litúrgicas. Por vezes, isso acarretou conseqüências terríveis com relação ao patrimônio artístico da igreja.


Uma adequação funcional


O problema de fundo é que não estava bem claro, para todos, o que se entendia por liturgia e reforma litúrgica. Com efeito, depois de tantos anos de fixismos rituais não foi fácil descobrir: de uma parte, existiam os que consideravam as mudanças como um ato de destruição da religião; por outro lado os que achavam que toda mudança e novidade constituía uma reforma e um progresso. Mas, querer mudar uma maneira habitual de proceder bem como a imagem das estruturas e sua colocação, sem ter feito uma prévia apresentação das modificações e sem ter preparado uma nova mentalidade foi uma pura ilusão. Hoje é claro que de fato, no contexto celebrativo dos nossos dias, mudou o aspecto exterior das coisas mas a mentalidade permaneceu a mesma, e teve grande peso a falta de consideração com relação à importância do SINAL sobre o qual se apoia toda a celebração litúrgica. Iniciando pela Encarnação, Cristo expressa a sua vontade salvífica através da materialidade dos sinais e a mensagem implícita nos mesmos. A falta de conhecimento do seu significado autêntico faz com que se torne imprescindível realizá-los na mesma perspectiva na qual Cristo os escolheu e sucessivamente os transformou, esquecendo-nos das finalidades sobrenaturais. Infelizmente no passado a devoção sacralizou os gestos, o mobiliário e objetos litúrgicos, jogando sobre o fiel o dever da veneração mais que a compreensão; desta forma a ação que demandava sinais não traduzia a autenticidade da iconografia que lhe era própria e muito menos a mensagem iconográfica implícita. Portanto, tornava-se difícil entrar profundamente no mistério que se celebrava.

É necessário, antes de tudo, descobrir o valor originário, natural e ao mesmo tempo fortemente simbólico dos sinais litúrgicos cristãos, para dar início a autêntica reforma celebrativa. Jesus, instituindo os sacramentos, atuou num preciso quadro iconográfico: escolheu, por razões óbvias, algumas realidades naturais porque trazem em si mesmas um significado análogo ao que Ele queria que se realizasse no plano sobrenatural. Muito eloqüente é o exemplo que nos vem da instituição da Eucaristia. Jesus tomou o pão e o vinho, dois elementos fundamentais para a alimentação humana, fruto não só da terra, mas também "do trabalho do homem" portanto realidades que provêm da natureza e depois são elaboradas pela fadiga humana. Ele os tomou e os deu aos seus apóstolos para que comessem e bebessem. Os ofereceu num contexto bem preciso: o banquete, realidade carregada de sentimentos que caracterizam as relações familiares e de amizade; num banquete que não foi ocasional nem habitual, mas ritual e solene; na ocasião da celebração profética da antiga Pasqua, numa sala preparada para a festa: "Desejei ardentemente comer esta páscoa com vocês" (Lc. 22,15).Jesus se serviu iconograficamente de todas essas realidades por causa do conteúdo iconológico próprio, não negando, mas sublimando a sua mensagem natural. É através do mistério da última ceia que ele passou o sentido da doação do seu corpo e do seu sangue, doação que sacramentalmente transforma a natureza mesma daquele pão e vinho colocados sobre o altar. Por conseqüência a celebração Eucarística, lida na pregnância do sinal, mais que a "presença real" de Cristo visa sublinhar a grandeza do dom que é o seu corpo e sangue redentor: "Tomai e comei, isto é o meu corpo... tomai e bebei, isto é o meu sangue" (conf Mt. 26,26-27).Esta referência pode servir de exemplo para compreender melhor como, para realizar uma verdadeira reforma litúrgica, faz-se necessário esclarecer a identidade dos elementos celebrativos, buscando a verdade ofuscada ou adaptada a diversas situações históricas. Somente isso nos permitirá realizar de forma autêntica os sinais, através dos quais, diz a definição conciliar da liturgia, "realiza em modo próprio a cada um a santificação do homem; nela o corpo místico de Jesus Cristo, cabeça e membros, presta a Deus o culto público integral." (Sacrosanctum C. nº7 EV 1/11). Esta significação, se realizada pela pessoa que acredita e ama, não pode ser feita senão de forma sublime, isto é, artística, no gesto e na ação, seja através das imagens e estruturas.É importante também o convite geral da constituição conciliar sobre a liturgia S.C. no nº21, que pede para rever a iconografia dos pólos celebrativos e restituir-lhes a própria identidade, de forma que eles possam expressar a mensagem litúrgica implícita e conduzir os fiéis a entrar em cheio na celebração. Precisamos ter presente que, sendo a celebração litúrgica um rito, o seu desenvolvimento, assim como os elementos que o envolvem, são carregados de significados, que serão perceptíveis em profundidade somente pelos que foram iniciados.Todos os elementos que compõem o contexto celebrativo estão envolvidos pelo rito, e dele recebem uma carga semântica muito forte; possuem um quadro iconográfico, bem preciso que às vezes precisa vir à tona. É antes de tudo a própria celebração e o contexto no qual ela se dá que "escreve" "marca" a imagem do mistério que se realiza no lugar do culto.


Arquitetura vazia de símbolo


Na liturgia, a arquitetura e a iconografia estão profundamente unidas. Uma contém materialmente a celebração, a outra é a sua expressão.A arte pictórica e escultórea concorrem na explicitação e na comunicação da mensagem própria da ação que se realiza.Infelizmente, como já acenamos no começo, a reação pós-conciliar ao sufocamento que o falso simbolismo produzia, ao decorativismo que tomou conta nos séculos passados das estruturas litúrgicas, levou-nos a um despojamento que abriu mão também do simbolismo autêntico, de modo que não se teve em conta o fato de que em cada estrutura, no contexto litúrgico, existe uma dupla função: aquela prática, em relação com a ação material que a envolve e a simbólica, expressa pela celebração do mistério entendido como lugar da ação.A iconografia é dúplice: aquela inerente e a justaposta. A primeira se expressa na própria celebração e se compõe no contexto de maneira simbólica como expressão do mistério que é celebrado, seja denotando o ato na sua execução material, seja conotando as estruturas que o envolvem. É esta uma iconografia de tipo dinâmico, da qual, após a oração, permanece somente o contexto material e a sua força evocativa. Os elementos constitutivos desse contexto, muitas vezes são enriquecidos pelas contribuições artísticas além das iconográficas, e dão lugar a uma nova iconografia capaz de favorecer uma explicitação iconológica intrínseca e portanto uma maior compreensão dela. Esta iconografia importante, chamada decoração é do tipo estático. Sobrepondo-se à iconografia estrutural ou inerente, algumas vezes não a esclarece e desenvolve mas a sufoca e a torna equivocada, desviando o seu significado com imagens não pertinentes. Exemplo eloqüente é o que aconteceu com a estrutura do altar nos séculos passados. A estrutura arquitetônica sempre teve grande importância no contexto litúrgico. Ela também é iconografia, pois compõe de forma articulada os elementos que envolvem a celebração dos santos mistérios, ricos de sua relativa iconologia. Além disso, uma grande contribuição pode vir da iconografia realizada para o lugar litúrgico. Ela encontra a expressão que lhe é implícita no programa iconográfico, mistagógico, particularmente presente nos lugares de culto dos primeiros séculos cristãos. Ela se propõe, antes de tudo, atrair a atenção dos fiéis para o que está sendo celebrado e inseri-los ativamente neste mistério. Este conjunto iconográfico faz memória das profecias ou das realidades fundantes do mistério litúrgico; torna visível a realidade que ritualmente se celebra e as presenças invisíveis que ele envolve. Conota as realidades intrínsecas à celebração, sublinha-se o simbolismo e a função icônica. Infelizmente com o tempo perdeu-se este tipo de programa. Depois dele ter assumido uma função catequética, depois narrativa, fracionou-se, concentrando-se em sujeitos unitários e atribuindo-lhes não mais a função de meios, mas fins, isto é, transformando-os de simples elementos que acompanhavam a celebração do mistério em objetos de devoção. Isto aconteceu com toda a iconografia das imagens e pinturas dos santos nos últimos séculos. Também as estruturas arquitetônicas e o mobiliário foram alterados na sua imagem e consequentemente acabaram por sublinhar aspectos que não respondem à iconologia do sinal litúrgico celebrado. Para que aconteça de fato uma verdadeira reforma, é necessário rever a iconografia própria do espaço e do mobiliário.A igreja é para a assembléia Começando pelo espaço litúrgico que acolhe a celebração, devemos sublinhar que o termo "igreja" deriva da reunião das pessoas que nela acontece. A sua função primordial, essencial, é acolher a assembléia que se propõe realizar o convite de Jesus: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22, 19); (1 Cor 11, 24). Como afirma Jesus: "Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome, lá estou no meio deles" (Mt 18, 20).A presença do Cristo na Igreja é antes de tudo conseqüência da reunião e possui caráter sacerdotal, isto é, de mediação entre as pessoas e Deus Pai. A dedicação deste lugar a Deus é um ato diferente, não necessariamente em conseqüência do seu uso específico. As pessoas podem reservar convenientemente e de forma exclusiva para Deus e o seu culto, um lugar, e também lhes consagrar qualquer espaço. Esta destinação exclusiva a Deus, pode também acontecer em forma de oferta no sentido de ofertar-lhe uma casa; neste caso a igreja é a "domus Dei" ou basílica. Nesta ótica, a presença das espécies Eucarísticas guardadas no tabernáculo (pequena casa) sublinham o caráter devocional, distinto da celebração litúrgica. A instrução sobre o culto eucarístico no nº49 diz a este respeito: "Não será inútil lembrar que a primeira finalidade da conservação das sagradas espécies fora da missa é para a administração do viático; secundariamente para a distribuição da eucaristia fora da missa e para a adoração do Senhor Jesus presente nas espécies". Por isso, a reserva tem que ser colocada fora do altar. Convém que na igreja exista um lugar distinto, propriamente criado e adaptado onde o fiel possa permanecer em oração, encontrar alívio e tranqüilidade espiritual, acolhendo o convite de Jesus: "Vinde a mim, todos vós, que estais cansados, afadigados e oprimidos e eu vos restaurarei" (Mt 11,28).Esta verdade nos é garantida pelo infinito gesto de amor de Jesus que chegou até o dom do seu corpo e sangue, disponibilizando-os para o nosso alimento espiritual.

A autêntica tomada de consciência da natureza própria do lugar do culto cristão pode ser favorecida através de uma oportuna iconografia ou decoração, que com a arte figurativa ou abstrata faça reviver os momentos e os sentimentos transmitidos pela Palavra de Deus e pelos sinais salvíficos realizados por Cristo.

Na Igreja, a reunião dos fiéis a partir do convite de Jesus, acontece para testemunhar-lhe o nosso amor, para escutar a sua Palavra, para proclamar o seu louvor e participar do banquete por Ele preparado; tudo isto comporta a presença de algumas estruturas, que são: o altar, o ambão a pia batismal e a cadeira. Para que haja participação ativa é necessário compreender a iconologia própria dessas estruturas, que geram um espaço específico.


Texto de Vicenzo Gatti(il regno – atualità – 2/2003)Tradução livre de Ir. Laide Sonda

sábado, 16 de junho de 2007

LITURGIA LUTERANA

CULTO LUTERANO

Para iniciar, é importante definir o que seja "culto". Sinteticamente, culto é "o encontro da comunidade com Deus". Esse encontro só é possível porque Deus permite e reúne a comunidade. Não é a comunidade que convoca, mas Deus se coloca à disposição (Mt 18.20) e foi Ele que ordenou que esse encontro acontecesse (1 Co 11.24 e 25). Deus ordena e vem ao encontro da comunidade no culto. Não só o/a pastor/a, mas também comunidade toda é responsável para que seja um bom encontro com Deus. O/A pastor/a ajudam a comunidade a celebrar o culto, a celebrar o encontro com Deus. A liturgia é justamente o "conjunto de elementos e formas através dos quais se realiza esse encontro" (Nossa liturgia: das origens até hoje. Fascículo 1).

A Confissão de Augsburgo, texto base da confessionalidade luterana, diz em seu Artigo VII que não é "(...) necessário que as tradições humanas ou os ritos e cerimônias instituídos pelos homens sejam semelhantes em toda a parte". Portanto, não é a afirmação rígida de uma mesma forma de culto que garante a unidade da igreja. Para isto, afirma o mesmo artigo, "(...) basta que haja acordo quanto à doutrina do evangelho e à administração dos sacramentos".
Esse elemento da confessionalidade luterana permitiu, ao longo dos séculos, liberdade e criatividade nas formas litúrgicas na família luterana. Assim, as igrejas luteranas dos estados territoriais da Alemanha desenvolveram suas formas litúrgicas sem se preocupar em ter uma proposta comum. O caso do luteranismo brasileiro tem uma história peculiar, pois as comunidades de origem alemã foram adotando as tradições litúrgicas das igrejas de origem dos pastores que foram vindo para o Brasil. Em grande parte, as comunidades adotaram a Agenda Litúrgica da Igreja Evangélica na Prússia, que já era uma igreja resultante da fusão de protestantes de origem reforma e luterana. Também a veste litúrgica (Veste Talar) em uso na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) é uma herança da Igreja Evangélica na Prússia. Outras comunidades adotaram a Agenda Litúrgica da Igreja Evangélico-Luterana na Baviera. As comunidades do Espírito Santo adaptaram da Agenda Litúrgica para as Comunidades Evangélico-Luteranas seu modelo litúrgico. Não obstante essas formas litúrgicas que, mais que história, representam uma herança e uma tradição, a IECLB vem buscando traduzir essa herança e tradição em propostas litúrgicas mais atuais, mais contextuais e, ao mesmo, alicerçadas na herança comum do cristianismo. Duas preocupações norteam as novas propostas: manter a abertura ecumência para que novas formas litúrgicas não signifiquem mais enclausuramento confessional e manter a liberdade criativa das comunidades a fim de que preservem sua autonomia litúrgica e contextualidade.

A ordem do culto no brasil
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) aprovou no XXII Concílio da Igreja, em outubro de 2000, em Chapada dos Guimarães, MT, a seguinte ordem de culto:
liturgia de abertura
Sino - Prelúdio
Acolhida
Cântico de entrada
Saudação (apostólica ou trinitária)
Confissão de pecados (de várias formas)
Kyrie Eleison (lamento pelas dores do mundo)
Glória in excelsis (louvor)
Oração do dia

liturgia da palavra
Leituras bíblicas (Lecionário)
Cânticos intermediários
Pregação (interpretação)
Confissão de fé
Comunicações (que implicam a oração da Igreja)
Oração de intercessão
(Se for culto da Palavra passa para o Pai-Nosso, avisos, benção, envio, hino. Neste caso, as ofertas podem ser recolhidas após o Credo)
liturgia da eucaristia
Preparo da mesa e ofertório (levar elementos da Ceia e recolher as ofertas)
Oração do ofertório
Oração Eucarística
Pai-Nosso
Gesto da paz
Fração
Cordeiro de Deus
Comunhão
Oração pós-comunhão

liturgia de despedida
Avisos comunitários
Benção
Envio
Hino

Essa proposta é um "esqueleto" mínimo que, ao mesmo tempo que cria um sentimento de pertença para membros que visitam outras comunidade da IECLB em outras localidades do país, garante a liberdade litúrgica das comunidades.


domingo, dia do culto

Conforme o testemunho bíblico, ao ser humano cabe trabalhar seis dias e descansar no sétimo. Não só o ser humano descansa, mas toda a criação. Descansar completa a suprema dignidade de tudo o que foi criado. Deus não criou apenas para ser gasto, usado, consumido e explorado, mas, e principalmente, para fruir, para saborear.
Este "dia de descanso" de tudo o que foi criado por Deus foi desde sempre santificado e chamado "dia do Senhor". O "dia do Senhor" é, portanto, oferta generosa do Criador para que toda a sua criação se recupere, restabeleça-se em todos os sentidos para a luta do do dia-a-dia. Assim, toda a criação repousa e dedica-se em gratidão ao Criador de toda a vida.
Para as primeiras comunidades cristãs o primeiro dia da semana, o domingo, tornou-se o "dia do Senhor", pois nesse dia deu-se o evento central da fé cristã, a ressurreição. Na ressurreição de Cristo, Deus coloca o horizonte a que se destina toda a criação: a redenção (Rm 8.18-25). Cristo é o "cabeça", o Senhro da Igreja. Por isso, os luteranos entendem, que o domingo é o dia apropriado para o descanso da criação e para render culto a Deus, celebrando em antecipação a glória futura a que toda a criação está destinada.


música

O canto
O canto é uma das marcas da tradição luterana, principalmente o canto comunitário. A Reforma, em suas propostas litúrgicas, estimulava a participação da comunidade com o canto. Lutero mandou imprimir o primeiro hinário em 1524. Ele mesmo compôs vários hinos, entre eles o "Castelo Forte" - o hino da reforma.
Hinários
O hinário em uso hoje na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) chama-se Hinos de Povo de Deus (HPD) e tem 306 hinos. Nesse hinário temos hinos que vão do século XVI ao século XX. Muitos desse hinos são "clássicos" da hinologia luterana e certamente estão na base da espiritualidade das comunidades. Cantá-los evoca o sentimento de pertença à família luterana e ao Povo de Deus. Na segunda metade de 2001, a IECLB lançou o Hinos de Povo de Deus 2 com 185 hinos novos. Com mais esse hinário, a IECLB acolhe hinos mais recentes e que, de alguma forma, já haviam sido incorporados ao dia-a-dia das comunidades.

Além desses hinários oficiais, as comunidade, os setores de trabalho e os movimentos dentro da IECLB têm a liberdade de lançar coletâneas de hinos mais identificados com sua proposta e sem o compromisso de oferecerem hinos para todos os períodos do ano litúrgico. Para ficar só dois exemplos de circulação nacional, citamos o "Cantarei ao Senhor" (vários volumes) e "O povo canta", que procura oferecer subsídios e hinos para todo o ano litúrgico.
Acompanhamento musicalO canto comunitário é tradicionalmente acompanhado de orgão ou harmônio. Entretanto, o canto tem renovado sua linguagem e também as possibilidades de acompanhamento. Hoje já encontramos comunidades onde o canto se faz acompanhar de piano, violão ou bandas. Uma forte característica das comunidades luteranas é o canto coral. Em momentos especiais ou reforçando a celebração dominical, o coral enriquece o louvor da comunidade.
Fonte: Site da IECLB