quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natal do Senhor
O Mistério do Natal
Isaías 9.1-7 / Salmo 96 / Tito 2.11-14 / Lucas 2.1-14



Hoje é Natal. Celebramos o aniversário do Senhor Jesus. Ele é o verbo que encarnou entre nós. Nasceu com o propósito da Páscoa. Veio como ovelha para o matadouro. É o nosso Cordeiro que tira o pecado do mundo. Esta data nos faz celebrar o milagre da encarnação do Filho de Deus, o Emanuel; Deus conosco.
A palavra de Deus hoje nos levará a contemplar o mistério do Natal.

I. O Mistério do Nascimento do Cristo - Lucas 2.1-14
            O povo de Israel esperava a vinda do Cristo (Messias) que nasceria em Belém para salvar o mundo. O Natal fala da concretização dessa esperança.
Lucas 2.1-14 nos informa que um recenseamento obrigou José e Maria saírem de Nazaré e irem a Belém, pois ele era da família de Davi (1-5).
Os vv.6,7 dizem que “Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria”.
            Lucas narra também a manifestação dos anjos aos pastores que estavam próximos de Belém e guardavam seu rebanho durante as vigílias da noite (8). O texto informa que um anjo do Senhor desce onde eles estavam (9) e disse (10,11): “Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. O sinal dado foi a manjedoura (12).
            Logo em seguida, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem (13,14).
            Esta é a mensagem de Natal: o Cristo que nasceu em Belém é o Salvador e Senhor. Ele não excluiu ninguém. Todos são chamados ao arrependimento e ao encontro com Deus.

II. O Mistério do Nascimento do Deus forte - Isaías 9.1-6
O profeta Isaías 9.1-6 fala da esperança para a região da Galiléia (1). O povo veria uma grande luz (2): “O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz”.
Haveria a multiplicação da alegria (3), a libertação (4) e a paz (5).
            Tudo irá acontecer por causa do Deus forte que nascerá como menino (6): “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.
            Jesus é o Deus forte. Tem o governo em seus ombros. Nada acontece sem sua permissão. Jesus nasceu para reinar. Hoje reina em nosso coração e reinará triunfalmente no mundo em sua gloriosa vinda.
            Na simplicidade e fragilidade da manjedoura estava o Deus forte. Por isso, nosso encontro com Jesus tem o poder de mudar todas as coisas. O que será impossível para o menino de Belém?

III. O Mistério do Nascimento do Senhor - Salmo 96
O anjo diz aos pastores que o menino de Belém é o Cristo, o Salvador e Senhor.
Salmo 96 é lido como um texto messiânico que fala da vinda de Jesus.
Ele nos convida a cantar um novo cântico (1), a bendizer o seu nome e anunciar a sua salvação (2), sua glória e maravilhas (3).
O Senhor é digno (4), pois é o criador de todas as coisas (5). O v. 6 diz: “Glória e majestade estão diante dele, força e formosura, no seu santuário”.
            Assim como os magos do oriente (Mt 2.1-11), somos convidados a tributar glória e força ao Senhor (7); trazer oferendas (8) e adorar (9).
            Jesus reina (10) e traz tempo de alegria (11,12). Esta alegria está na esperança da volta do Senhor que (13) “...vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade”.

IV. O Mistério do Nascimento Redentor - Tito 2.11-14
Paulo escrevendo ao pastor Tito (Tt 2.11-14) fala da redenção trazida pelo menino de Belém. Ele diz que a “graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (11).
Esta graça nos educou para a santidade (renegadas a impiedade e as paixões mundanas) com o propósito de vivermos nos desafios do presente século de forma “sensata, justa e piedosamente” (12). Ou seja, o desejo de Deus é que vivamos como regenerados.
A graça nos desafia a esperar a volta do Senhor (a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus – 13) e aponta para a missão do Filho de Deus que nasceu para nos remir na cruz do calvário e nos preparar como (14) “um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”.

Conclusão:
            Adoramos ao Senhor Jesus que nasceu em Belém para a nossa Salvação. Este é o Mistério do Natal. Celebramos a luz de Deus que veio para nos salvar. Feliz Natal é aceitar Jesus como Senhor e Salvador e o deixar controlar toda nossa vida.


Oração
Deus Onipotente, que nos deste teu unigênito Filho para que tomasse sobre si a nossa natureza, e nascesse neste tempo de uma Virgem; concede que nós, renascidos e feitos teus filhos por adoção e graça, sejamos de dia em dia renovados por teu Santo Espírito; mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.


Evangelho do Natal do Senhor Jesus
Lucas 2.1-14
Rev. Edson Cortasio Sardinha


           


O Natal é um retorno a Belém. No Natal ouvimos as vozes dos anjos falando das boas novas de grande alegria que será para todos os povos. No Natal seguimos a Estrela até Belém e voltamos a ver Jesus em sua simplicidade nascendo de Maria e sendo colocado em uma manjedoura. Natal é a concretização da esperança dos profetas. É o início da nossa redenção.
            O Evangelho de Lucas nos leva a Belém e permite que meditemos na obra salvadora do Senhor Jesus.

I. Indo a Belém
            Não estava nos projetos de José e Maria deixar Nazaré e ir a Belém. Foi um compromisso imposto pelo governo num momento muito difícil, pois Maria estava grávida de Jesus.  Foi uma decisão de César Augusto (1) "convocando toda a população do império para recensear-se". O problema é que (3) "todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade". Por isso José (4) "subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi". Não foi uma decisão de Deus. Foi uma decisão do homem visando interesses humanos e injustos. Mas Deus usou esta situação difícil e angustiante para realizar sua santa vontade. As profecias diziam que Jesus deveria nascer em Belém (Mq 5.2). Talvez neste final do ano você esteja avaliando sua vida assim: "Tudo deu errado e a vontade do homem prevaleceu sobre a vontade de Deus!" Mas se você confiar no Senhor e descansar, Ele, um dia, ou mesmo na eternidade, te mostrará que tudo na vida tem um propósito para aqueles que amam o Senhor e que são chamados segundo sua vontade (Rm 8.28). Natal significa que a Vontade de Deus prevaleceu.

II. O Nascimento do Senhor
            Quando José e Maria chegam em Belém Jesus nasce. Maria deu a luz a seu filho primogênito (primogênito significa primeiro, pois ela teve outros filhos com José. Leia  Mateus 12:46, 13:55, 56, Lucas 8:19, Marcos 3:31, João 7:1-10 e   Atos 1:14). Maria (7) "enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria".    Ele foi deitado numa manjedoura (coxo para os animais se alimentar), pois não havia lugar para Ele na hospedaria. Em Lv 25.35 e Ex 22.21, o Senhor ordena o cuidado e a fraternidade com o peregrino e estrangeiro. Mas o povo não cumpria a lei e Jesus teve que nascer num quarto de uma casa pobre onde os animais eram guardados, ou numa gruta onde os animais dormiam a noite. Hoje Jesus deseja nascer no coração das pessoas. O natal do mundo tem lugar para muitos pecados e tradições, mas poucos se preocupam em adorar o Senhor e aceitá-lo como Senhor e Salvador.

III. O Anúncio aos Pastores
            Jesus nasceu. As profecias foram cumpridas. A esperança dos profetas foram concretizadas. Ele nasceu para salvar homens e mulheres.      Mas este santo anuncio foi feito aos pobres e rejeitados pastores de Belém. Deus prioriza o pobre e excluído na noite de Natal. O texto diz que (8) "Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite". Foi neste cenário que a (9) "a glória do Senhor brilhou". Como ficaram possuídos de medo o anjo lhe disse: (10) "Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: (11)   é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor". A boa notícia era de alegria e para todo o povo sem excluir pobres e ricos. O anjo usa três palavras para falar de Jesus como boas-novas (boas notícias): Ele é Salvador, é o Cristo e é o Senhor. O Sinal foi a criança deitada numa manjedoura. Muitas crianças nasceram naquela noite, mas apenas uma foi colocada em uma manjedoura.
Mas porque uma manjedoura? Porque era um elemento de identificação com os pastores (12). Os pastores tinham manjedouras nos campos também. Deus usa um simples objeto para identificar ao mundo a vontade de salvar e incluir os rejeitados.
            Os pastores talvez se perguntaram: Porque nós fomos escolhidos para receber esta maravilhosa notícia? Uma multidão da milícia celestial, com o anjo mensageiro, dão a resposta aos pastores louvando a Deus e dizendo (14): "Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem". A paz é entre os homens a quem Deus quer bem. Ou seja, os pastores que eram rejeitados pelos homens, foram escolhidos por Deus (Mt 22.14). Tivemos a graça de receber o Evangelho e crer naquele que o Senhor enviou.
            O Natal é mais um sinal de Deus que nossa salvação é a prioridade.

Conclusão:
            Hoje o Evangelho de Natal nos ensinou muitas coisas maravilhosas. Assim como José e Maria, precisamos confiar e descansar no Senhor. A sua vontade sempre irá prevalecer. Belém não foi uma circunstância provocada pelo homem, mas uma santa providência de Deus para cumprir sua Palavra. Precisamos deixar Jesus nascer em nossa vida. Nossa Natal não pode ser cercado apenas de tradições e luzes. Precisa ser um lugar de adoração ao Senhor Jesus. Deus nos ajudou e nos salvou. Hoje temos a paz de Deus. Podemos cantar com os anjos: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens a quem ele quer bem!".  Realmente tivemos a graça de receber o Evangelho e crer no Senhor que nasceu no Natal.
            Isso é sem dúvida um Feliz Natal!
           
Oração Final
Deus Onipotente, que nos deste teu unigênito Filho para que tomasse sobre si a nossa natureza, e nascesse neste tempo de uma Virgem; concede que nós, renascidos e feitos teus filhos por adoção e graça, sejamos de dia em dia renovados por teu Santo Espírito; mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.





terça-feira, 11 de outubro de 2016

Os Puritanos e as Liturgias

Os Puritanos e as Liturgias
Rev. Edson Cortasio Sardinha





Algumas igrejas olham para as nossas tradições litúrgicas e acham estranhas. Alguns chegam a dizer que somos “católicos melhorados”. Muitos, por falta de conhecimento, desprezam nossa liturgias e ritos, uso de óleo para unção, vestes clericais, genuflexão no altar e imposição das mãos. 
O termo “puritano” no sentido pejorativo atual significa rigidez, moralismo, intolerância. Contudo, foi um movimento muito influente na Inglaterra e a principal tradição religiosa na história dos Estados Unidos.
Este movimento em prol da reforma da Igreja da Inglaterra teve início no reinado de Elizabete I (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força religiosa na Inglaterra e também nos Estados Unidos.
Foi um movimento religioso protestante dos séculos 16 e 17 que buscou “purificar” a Igreja da Inglaterra de toda aparência com o catolicismo. O movimento foi calvinista quanto à teologia e presbiteriano ou congregacional quanto ao governo eclesiástico.
Sabemos que o protestantismo inglês sofreu a influência de Lutero e especialmente da teologia reformada continental, a Reforma Suíça de Zurique (Zuínglio, Bullinger) e Genebra (Calvino, Beza).
Henrique VIII (1509-1547) usou a reforma protestante na Inglaterra e forjou a criação de uma igreja católica nacional inglesa. Em 1539, impôs os Seis Artigos, com severas punições para os transgressores (“o açoite sangrento de seis cordas”).
Em sua doutrina, a Igreja nacional católica inglesa incluía a transubstanciação, a comunhão em uma só espécie, o celibato clerical, votos de castidade para leigos, missas particulares, confissão auricular, etc. Seria uma verdadeira igreja católica nacional.
Muitos protestantes se opuseram ao cerimonialismo e tiveram que fugir da Inglaterra; entre eles, Miles Coverdale e John Hooper.
Na época de Eduardo VI (1547-1553) a influência dos partidários de uma reforma profunda da igreja inglesa se tornou mais forte. John Hooper dispôs-se a aceitar um bispado que lhe foi oferecido, mas não a ser investido no ofício do modo prescrito, com o uso das vestes litúrgicas. Acabou sendo lançado na prisão por algum tempo. Foi o primeiro a expor claramente o argumento acerca das vestes. Para ele as vestes clericais eram resquícios do catolicismo. Começa a surgir uma nítida distinção entre anglicanismo e puritanismo.
Com Maria I (1553-1558), a sanguinária, tudo piorou. Ela tentou restaurar a Igreja Católica na Inglaterra e perseguiu os líderes protestantes. Muitos foram executados – Hugh Latimer (†1555), Nicholas Ridley (†1555) e Thomas Cranmer (†1556) – mártires marianos. Outros fugiram para o continente (Genebra, Zurique, Frankfurt), entre eles John Knox e William Whittingham, o principal responsável pela Bíblia de Genebra. Nesse período surgiram em Londres as primeiras igrejas independentes.
Com Elizabete I (1558-1603), apesar favorável aos protestantes, os puritanos se decepcionaram amargamente. A rainha continuou a controlar a igreja, manteve os bispos e as cerimônias litúrgicas. Ela que criou a Igreja Anglicana como a conhecemos hoje.
Os puritanos passaram a ter este nome a partir da “Controvérsia das Vestimentas” (1563-1567). Foi um protesto contra vestimentas clericais (eles propunham o uso de togas genebrinas), cerimônias como ajoelhar-se à Ceia do Senhor, dias santos e sinal da cruz no batismo.
Carlos I (1625-1649) manteve a política de repressão contra os puritanos, o que levou um grupo a ir para Massachusetts em 1630. No final do seu reinado, entrou em guerra contra os presbiterianos escoceses e contra os puritanos ingleses. Estes eram maioria no Parlamento e convocaram a Assembléia de Westminster (1643-49), que elaborou os famosos e influentes documentos da fé reformada.
Carlos II (1660-1685) - expulsou cerca de 2000 ministros puritanos da Igreja da Inglaterra. A Grande Expulsão (1662) marcou o fim do puritanismo anglicano. Embora perseguidos, sobreviveram como dissidentes (“dissenters”) fora da igreja estatal e eventualmente criaram igrejas batistas, congregacionais e presbiterianas.
O puritanismo americano foi muito dinâmico e influente por pouco mais de um século, desde os primórdios na Nova Inglaterra (1620) até o Grande Despertamento (1740). Alguns nomes notáveis dessa tradição foram John Cotton, William Bradford, John Winthrop, John Eliot, Thomas Hooker, Cotton Mather e Jonathan Edwards. Herdeiros recentes da tradição puritana: Charles H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, J. I. Packer, James M. Boice e outros.
Eles entendiam que a Igreja Inglesa devia adotar como modelo as igrejas reformadas do continente. O puritanismo influenciou a tradição reformada no culto, governo eclesiástico, teologia, ética e espiritualidade.
O sentido original do termo “puritano” apontava para a purificação da igreja, na medida em que os puritanos queriam descartar os elementos arquitetônicos, litúrgicos e cerimoniais que consideravam conflitantes com a simplicidade bíblica. Por exemplo, eles objetavam contra o sinal da cruz no batismo e a genuflexão para receber a Santa Ceia (Ceia mesa a mesa no altar).
Ao invés de paramentos elaborados (sobrepeliz), eles preferiam uma toga preta que simbolizava o caráter do ministro como um expositor culto da Bíblia.
Sofrendo oposição dos bispos e estando comprometidos com uma eclesiologia que dava ênfase à igreja como uma comunidade pactuada, muitos puritanos rejeitaram o episcopado.
Por causa desta influência histórica puritana, muitas igrejas da atualidade não aceitam nosso Calendário Cristão, vestes litúrgicas, unção com óleo e o ritual. 
A OESI é carismática, evangelical e litúrgica-sacramental. 



Fonte pesquisada: OS PURITANOS: SUA ORIGEM E SUA HISTÓRIA. Alderi Souza de Matos. In: http://www.mackenzie.br. 

sábado, 21 de maio de 2016

Estudo do ÍCONE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

ÍCONE DA SANTÍSSIMA TRINDADE



ESTRUTURA GEOMÉTRICA

Como todo ícone, este também foi "escrito" com base numa estrutura geométrica muito precisa, na qual cada elemento tem uma proporção estabelecida em relação aos outros e encontra o seu lugar segundo o seu significado e o seu valor simbólico. Essa estrutura dá equilíbrio e harmonia a todo o conjunto.

Toda composição do ícone de Rublev foi construída sobre a Cruz, que constitui a estrutura geométrica principal. A sua vertical, como eixo central (E-P), liga a árvore, a cabeça do anjo central, o cálice e o retângulo dos mártires. A linha horizontal da cruz (F-G), liga a cabeça dos anjos laterais, passando pela fronte do anjo central, desde a arquitetura até o monte.

Os anjos aparecem sob um círculo que indica a plenitude e a perfeição e sublinha a circularidade dos olhares de Amor das Três Pessoas. A mão do anjo central é o centro da circunferência, onde estão as três cabeças.

Também o cálice, com a cabeça do cordeiro imolado sobre o altar, está dentro de um círculo, em torno do qual se concentram todos os outros, constituindo assim, o centro móvem do ícone. Acima da cabeça do anjo central (E) forma a ponta do triângulo, cuja base (A-B) é a linha inferior do ícone. O segundo triângulo se apresenta inverso. Sua base (C-D) é a linha superior do ícone.

Todo o ícone está inscrito em um octógono. "O número oito simboliza o poder celestial na Terra, o dia após o sétimo dia da criação, a ressurreição de Cristo e o começo da perfeição.A figura geométrica octógono, já é símbolo da perfeição desde a Antiguidade. É a fusão entre o infinito, o céu (círculo) e a área delimitada, os quatro pontos cardeais terrenos (quadrado)", o número simbólico dos quatro evangelistas: é o sinal da universalidade da Palavra.

O espaço compreendido entre os dois anjos laterais assume a forma de um cálice que sobe de baixo: o Pai e o Espírito Santo "contém" o Corpo e o Sangue de Cristo.

OS TRÊS ANJOS

Os três anjos, perfeitamente iguais e, todavia diferenciados, representam um só Deus em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


É próprio da Santíssima Trindade diversificar, quanto ser una e indivisível, na sua essência e nas suas manifestações, embora na diversidade das Pessoas. Conhecemos o Pai através do Filho: Quem me vê, vê o Pai (Jo 14,19). Conhecemos o Filho através do Espírito Santo: Ninguém pode dizer Jesus Cristo é o Senhor, senão por meio do Espírito Santo (1 Cor 12, 3).

Os cetros idênticos indicam a igualdade do poder do qual cada anjo é dotado. A diversidade é expressa através das cores das roupas, mas sobretudo pela atitude pessoal de cada um em relação aos outros.

No anjo da esquerda se reconhece a figura Pai, no anjo central a do Filho e no anjo da direita a figura do Espírito Santo.

O PAI

O anjo da esquerda, o Pai, veste um manto lilás sobre uma túnica azul, símbolo da sua divindade. O lilás é uma cor evanescente, quase transparente, sinal do mistério e da transcendência.

O seu manto cobre os seus dois ombros, ao contrário do Filho e do Espírito, porque Ele não é enviado, mas envia os outros. Este seu envio é indicado também é indicado pelo pé esquerdo, que parece estar iniciando um passo de dança, ao qual o Espírito, enviado ao mundo depois do Filho, responde.

Tudo converge para ele, como para a fonte: os outros dois anjos, a rocha, a casa e a árvore. Está estático, reto, porque esta pessoa é a origem de si mesma: é o sinal da majestade e a referência para os outros dois.

O gesto da mão e o olhar parecem confiar uma missão ao Filho que a acolhe, curvado, em sinal de consentimento. As suas mão não tocam a Terra-altar, mas a abençoam com os dois dedos da mão direita levantados; Ele não está no mundo. A cabeça inclinada indica que ele acolhe a oferta amorosa do Filho.

O FILHO

O anjo central, o Filho, traja a túnica vermelha: simbolo da natureza humana assumida na encarnação; o manto azul é sinal da natureza divina da qual se "vestiu" depois da sua vida na terra e cobre um só ombro, porque Ele é enviado pelo Pai. A estola dourada indica a sua missão vitoriosa do Cristo "sumo sacerdote", que se deu a si mesmo para a salvação do mundo e ressuscitou.

O seu corpo curvado e o olhar de Amor voltado para o Pai indicam a aceitação e a docilidade à vontade paterna. Está comunicando com o Pai a respeito da missão que cumpriu.

A sua mão direita, apoiada à Terra-altar, é a mais próxima do cálice da oferta, porque ele é a oferta simbolizada pela cabeça do cordeiro. A mão reproduz o gesto de abençoar do Pai e o ato de apoiá-la à Terra-altar, indica a sua descida ao mundo através da encarnação; os dois dedos são símbolo das suas duas naturezas: Ele é plenamente Deus e plenamente homem.

O ESPÍRITO SANTO

O anjo da direita, o Espírito Santo, traz a túnica azul, símbolo da sua divindade, um manto verde-água, cor da vida, do crescimento e da fertilidade. No campo espiritual o verde é o símbolo da força vivificante do Espírito, que ressuscitou Cristo e comunicou ao mundo a plenitude do significado da Ressurreição.

É Ele quem dá a vida: o Espírito de Amor e da comunhão. Dos três, este é o anjo que tem a expressão mais reservada.

A sua figura é a mais curvada sobre a mesa, em atitude de escuta, de humildade e de docilidade. Revela-nos um aspecto novo do Amor que é também necessidade de ser acolhido, protegido, para ser fecundado.

A sua mão pendente sobre a Terra-altar indica a direção da bênção: o mundo ao qual o Espírito dá vida e crescimento, fazendo germinar o cálice do sacrifício e o seu fruto.

O Espírito está participando profundamente do diálogo divino e está pronto para ser enviado ao mundo para continuar a obra do Filho. O manto, apoiado sobre um dos seus ombros e o pé que está respondendo à dança iniciada pelo Pai, são símbolos do seu estar preparado para partir para cumprir a missão que lhe foi confiada: Quando o Espírito vier, Ele vos guiará a verdade toda inteira... dirá tudo que já foi dito e lhes anunciará as coisas futuras (Jo 16, 13).

Todo o simbolismo iconográfico do ícone da Trindade nos mostra a tese eclesiológica fundamental: a Igreja é uma revelação do Pai no Filho e no Espírito Santo.

OS OUTROS ELEMENTOS

Atrás do Pai se vê a casa de Abraão, que se tornou templo, morada do Pai e símbolo da Igreja, sua Filha, porque "corpo" de Cristo, segundo a teologia paulina.

O carvalho de Mamre se transforma na árvore da vida: a cruz de Cristo, o homem novo, pagou o resgate da humanidade.

A rocha-monte atrás do Espírito Santo é, ao mesmo tempo, símbolo de proteção, de lugar "teofânico", isto é, lugar onde Deus se manifesta e símbolo da ascensão espiritual.

O vitelo ofertado por Sara numa bandeja se torna o cálice eucarístico.

O ouro, símbolo da luz divina: o fundo e as auréolas douradas são símbolos da luz divina, como o sol é fonte de toda luz e cor.

No ícone a luz não é natural, mas espiritual; provém da graça recebida, por meio do Espírito, antes de tudo pelo iconógrafo, na contemplação do mistério que ele vai representar, depois por quem contempla o ícone com a mesma atitude de oração.

O Autor:

Andrei Rublev, em russo Андре́й Рублёв, (1360 ou 1370  1427 ou 29 de Janeiro de 1430) é considerado o maior pintor russo de ícones, afrescos e miniaturas parailuminuras. Há pouca informação sobre sua vida. A primeira menção de Rublev é em 1405, quando decorou os ícones e afrescos da Catedral da Anunciação no Kremlin emMoscou.
Na arte de Rublev duas tradições se combinam: a mais alto ascetismo e a harmonia clássica das maneiras Bizantinas. As personagens em suas pinturas são sempre calmas e pacíficas. Mais tarde, sua arte se tornou o ideal quando se fala em pintura de igrejas e arte icônica.
Rublev foi canonizado em 1988 pela Igreja Ortodoxa Russa.
Fonte bibliográfica:

SENDLER, Egon. L'ICONA: immagine dell'invisibile - Elementi di teologia, estética e tecnica. Milano: San Paolo, 1985.

Comunità Missionaria di Villaregia. Ícone da Santíssima Trindade. Disponível em: www.cmv.it
Wikipédia: A enciclopédia livre. Catedral de Aachen. Disponível em:pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Aachen

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Solene Oração pelo Início da Quaresma baseada nos Escritos dos Pais da Igreja


 

Solene Oração pelo Início da Quaresma
baseada nos Escritos dos Pais da Igreja

Texto organizado pela OESI

Introdução:
E nós, meus irmãos, nós que recebemos do Invencível Combatente as sagradas práticas da Quaresma, saibamos repelir os desejos da carne e mortificar o corpo com jejuns, a fim de que cresçam as virtudes na nossa alma. Jejum das funestas paixões e prazeres, jejum de toda a injustiça, jejum do odioso espírito de rivalidade. Renunciemos, meus irmãos, aos festins, mas renunciemos mais ainda aos nossos vícios. Saibamos escolher a temperança. Abster-nos do vinho, a fim de que saibamos resistir à embriaguez dos prazeres. De que nos servirá, com efeito, jejuar durante quarenta dias se não respeitarmos a lei do jejum? De que nos serve fugir aos banquetes, se ocuparmos em discórdias os nossos dias? De que nos serve não comer o pão que nos cabe, se tirarmos a comida da boca do pobre? O jejum para o cristão que escolhe as privações deve ser alimento espiritual. O jejum para o cristão deve preparar a paz e não as lutas. De que te serve não comer carne, se da tua boca se soltam injúrias piores que qualquer alimento? De que te serve santificar o estômago com jejuns, se as mentiras te mancham a boca? Em verdade te digo, meu irmão, que não tens o direito de entrar na Igreja se continuas enredado e envolvido nas malhas mortais da usura voraz, que não tens o direito de invocar o teu Senhor se as tuas orações vêm do teu coração invejoso; que não tens o direito de bater no peito se nele se escondem os teus maus desejos. A moeda que deres ao pobre só será justa, quando fores pobre também. Eis, irmãos muito amados, a verdadeira fome religiosa, eis o alimento das almas tementes a Deus. As almas que santificaram o jejum pela castidade, que o tornaram alegre pela caridade, que o aformosearam pela paciência, que o acalentaram pela bondade, que lhe deram o seu justo preço pela humildade. Meus irmãos, vivamos a Quaresma de Cristo com todas as nossas forças e, pela prática daquelas virtudes, façamos que seja nossa, pelos dois gêmeos jejuns do corpo e do espírito, a graça divina. Amém (Máximo de Turim (380-465) – As práticas Quaresmais).
Adoração:
Nós, os novos batizados, os filhos do batistério que acabamos de receber a luz, damos-Te graças, Cristo Deus. Tu iluminaste-nos com a luz do Teu rosto, Tu revestiste-nos com a veste que convém às Tuas núpcias (Sl 4, 7; Mt 22, 11). Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado.  Quem dirá, quem mostrará ao primeiro homem criado, Adão, a beleza, o brilho, a dignidade dos seus filhos? Quem contará também à infeliz Eva que os seus descendentes se tornaram reis, revestidos de uma veste de glória, e que com grande glória glorificam Aquele que os glorificou, brilhantes de corpo, de espírito e de veste? […] E quem os exaltou? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. […] Tu és brilhante e radioso, Adão. […] Ao ver-te, o teu adversário definha e exclama: Quem é este que vejo? Não sei. O pó foi renovado (Gn 2, 7), as cinzas foram divinizadas. O pobre doente foi convidado, foi refrescado, entrou e sentou-se à mesa, foi conduzido ao banquete e tem a audácia de comer e o desplante de beber Aquele que o criou. E quem Lho deu? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. Esqueceu as suas culpas antigas, não ostenta a menor cicatriz dos primeiros ferimentos. Abandonou os seus longos anos de paralisia na piscina, como tinha feito o paralítico, e deixou de trazer o leito aos ombros, mas traz às costas a cruz Daquele que teve piedade dele […]. Outrora, o Amigos dos homens lavou muitos homens nas águas, mas eles não brilharam assim; àqueles, porém, a Ressurreição tornou-os luminosos. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. […]. Eis-te recriado, novo batizado, eis-te renovado; não curves as costas ao peso dos pecados. Possuis a cruz como cajado, apóia-te nela. Leva-a à tua oração, leva-a para a mesa, leva-a para o leito, leva-a para todo o lado como título de glória. […] Grita aos demônios: Com a cruz na mão, ergo-me, louvando a Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado (Romano, o Melodista (490-556) – A Quaresma é o caminho da renovação).

Confissão:
Meu Deus, na Tua compaixão
derrama sobre mim o olhar do Teu amor
E recebe a minha ardente confissão.
Pequei mais do que todos os homens,
pequei só contra Ti, Senhor;
faz-me participar da Tua misericórdia,
meu Salvador, porque me criaste. […]
Meu Redentor, manchei a Tua imagem e semelhança (Gn 1, 26), […]
desfiz em farrapos o vestuário de perfeição
que o próprio Criador fabricou para mim e estou nu;
em seu lugar quis usar uma farpela rasgada,
obra da serpente que me seduziu (Gn 3, 1-5). […]
Fiquei fascinado com a beleza
da árvore que traiu a minha inteligência:
agora estou nu e coberto de vergonha. […]
O pecado me revestiu de túnicas de pele (Gn 3, 21),
agora que fui despojado
das vestes tecidas pelo próprio Deus. […]
E, como a prostituta, grito:
pequei contra Ti, só contra Ti.
Ó Salvador, acolhe as minhas lágrimas,
como aceitaste o perfume da pecadora (Lc 7, 36 ss.)
E, como o publicano, grito:
tem piedade de mim, ó Salvador.
Perdoa-me, porque de toda a descendência de Adão
ninguém pecou como eu. […]
Prostrado como Davi,
estou coberto de lama;
Mas assim como ele se lavou nas próprias lágrimas,
lava-me Tu também, Senhor!
Ouve os gemidos da minha alma
e os suspiros do meu coração;
acolhe as minhas lágrimas
e salva-me, meu Redentor.
Porque Tu amas os homens
e queres que todos se salvem.
Faz-me voltar à Tua bondade
e nela me recebe,
porque estou arrependido  (André de Creta (650-740), monge e bispo  - Grande Cânon da Liturgia Bizantina da Quaresma).

Louvor:
Naamã era sírio e estava leproso, sem que ninguém o pudesse curar. Então, uma jovem prisioneira disse-lhe que havia em Israel um profeta que podia curá-lo da lepra. […] Já é tempo de descobrires quem era aquela jovem prisioneira. Era a figura da assembleia mais nova de entre as nações, isto é, da Igreja do Senhor. Antes, quando não possuía ainda a liberdade da graça, fora humilhada pelo cativeiro do pecado. Mas, a seu conselho, este povo que não era ainda um povo escutou a palavra dos profetas, da qual duvidara durante muito tempo. Em seguida, quando acreditou que devia segui-la, o povo foi purificado de todo o contágio do pecado. Naamã duvidara antes de ser curado; mas tu já foste curado e por isso não deves duvidar. Já antes te foi dito que não devias acreditar apenas no que vês ao aproximares-te do batistério, para que digas: «É este o «grande mistério que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (1Cor 2, 9)? Eu vejo as águas que via todos os dias. Vão purificar-me estas águas a que tantas vezes desci sem nunca ter sido purificado?» Deves reconhecer que a água não purifica sem o Espírito. Por isso, leste que no batismo as três testemunhas são uma só: a água, o sangue e o Espírito (1Jo 5, 7-8); porque, se prescindires de uma delas, já não há sacramento do batismo. Que é a água sem a cruz de Cristo? É um elemento comum, sem nenhuma eficácia sacramental. Mas também é verdade que sem a água não há mistério da regeneração: «quem não renascer da água e do Espírito não entrará no reino de Deus» (Jo 3, 5). Também o catecúmeno acredita na cruz do Senhor Jesus, com a qual é assinalado; mas, se não for batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não pode receber o perdão dos pecados nem obter o dom da graça espiritual. Por isso o sírio Naamã mergulhou sete vezes, segundo a Lei; tu, porém, foste batizado em nome da Trindade. […] Proclamaste a tua fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. […] Morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus e, de certo modo sepultado naquele elemento do mundo, morto para o pecado, ressuscitaste para a vida eterna (Rm 6, 4). (Ambrósio de Milão (340-397), bispo de Milão – A Quaresma é um caminho para o Batismo).

Oração de Preparação para a Leitura Bíblica:
Kyrios
Senhor e Mestre da minha vida,
não me abandones ao espírito de preguiça, de desencorajamento
de dominação e de vã tagarelice.
Concede-me a graça de um espírito de castidade, de humildade,
de paciência e de caridade, a mim, Teu servo.
Sim, meu Senhor e meu Rei, que eu veja as minhas faltas
e não condene o meu irmão.
Tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
Ó Deus, tem piedade de mim, pecador.
Ó Deus, purifica-me que sou pecador.
Ó Deus, meu Criador, salva-me.
Perdoa-me os meus numerosos pecados!
Bendito Aquele que vem, o nosso Rei»
(Efrém, o Sírio – (306-373).

Edificação:
Leitura Bíblica: Mateus 6.1-18

O dia de hoje, meus bem-amados, é da maior importância. É um dia que nos solicita um grande desejo, uma pressa imensa, um alento vivo, para nos conduzir ao encontro do Rei dos Céus. Paulo, o mensageiro da Boa Nova, dizia-nos: «O Senhor está perto. Não vos inquieteis» (Fil 4, 5-6). […] Acendamos, pois, as lamparinas da fé; à semelhança das cinco virgens sensatas (Mt 25, 1ss.), enchamo-las do óleo da misericórdia para com os pobres; acolhamos a Cristo bem despertos, e cantemos-Lhe com as palmas da justiça na mão. Beijemo-Lo, derramando sobre Ele o perfume de Maria (Jo 12, 3). Ouçamos o cântico da ressurreição: que as nossas vozes se elevem, dignas da majestade divina, e brademos com o povo, soltando esse grito que se escapa das bocas da multidão: «Hosana nas alturas! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel». É razoável chamar-Lhe «Aquele que vem», porque Ele vem sem cessar, porque Ele nunca nos falta: «O Senhor está próximo de quantos O invocam em verdade» (Sl 144, 18). «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor». O Rei manso e pacífico está à nossa porta. Aquele que tem o trono nos céus, acima dos querubins, senta-Se, cá em baixo, sobre uma burrinha. Preparemos a casa da nossa alma, limpemos as teias de aranha que são os mal-entendidos fraternos, que não haja em nós a poeira da maledicência. Difundamos às mãos-cheias a água do amor, e apaziguemos todas as feridas criadas pela animosidade; semeemos o vestíbulo dos nossos lábios com as flores da piedade. E soltemos então, na companhia do povo, esse grito que brota dos lábios da multidão: «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel». (Proclo de Constantinopla (390-446), bispo – A Quaresma prepara para o Dia de Ramos).


Dedicação:
Depois deste tempo consagrado à observância do jejum, a alma chega, purificada e esgotada, ao batismo. Recobra então as forças mergulhando nas águas do Espírito; tudo o que tinha sido queimado pelas chamas das doenças renasce do orvalho da graça do céu. Abandonando a corrupção do homem velho, o neófito adquire uma nova juventude […]. Através de um novo nascimento, renasce outro homem, sendo embora o mesmo que tinha pecado. Por meio de um jejum ininterrupto de quarenta dias e quarenta noites, Elias mereceu pôr fim, graças à água que veio do céu, a uma seca longa e penosa na terra inteira (1Rs 19, 8; 18, 41). Extinguiu a sede ardente do solo trazendo-lhe uma chuva abundante. Estes fatos produziram-se para nos servir de exemplo, para merecermos, após um jejum de quarenta dias, a chuva bendita do batismo, para que a água que vem do céu regue toda a terra, desde há muito tempo árida, dos nossos irmãos do mundo inteiro. O batismo, como uma rega de salvação, porá fim à longa esterilidade do mundo pagão. É, com efeito, de seca e de aridez espiritual que sofre todo aquele que não foi banhado pela graça do batismo. Através de um jejum do mesmo número de dias e noites, o santo Moisés mereceu falar com Deus, ficar, permanecer com Ele, receber das Suas mãos os preceitos da Lei (Ex 24, 18). […] Também nós, irmãos muito queridos, jejuamos com fervor durante todo este período, para que […] também para nós se abram os céus e se fechem os infernos (Máximo de Turim (380-465), bispo
Sermão 28 – Importância do Jejum na Quaresma).

Bênção Final:
Aproximaste-te, viste a pia batismal e viste também o bispo perto da pia. E sem dúvida surgiu na tua alma o mesmo pensamento que se insinuou na de Naaman, o sírio. Pois, embora tenha sido purificado, inicialmente ele duvidara. […] Temo que alguém tenha dito: «É apenas isto?» Sim, realmente é apenas isto: ali encontra-se toda a inocência, toda a piedade, toda a graça, toda a santidade. Viste o que conseguiste ver com os olhos do corpo […]; aquilo que não se vê é muito maior […], porque aquilo que não se vê é eterno […]. Que haverá de mais surpreendente do que a travessia do Mar Vermelho pelos israelitas, para não falarmos agora apenas do batismo? E, no entanto, todos os que o atravessaram morreram no deserto. Pelo contrário, aquele que atravessa a pia batismal, isto é, aquele que passa dos bens terrestres para os do céu […], não morre, mas ressuscita. Naaman era leproso. […] Ao vê-lo chegar, o profeta disse-lhe: «Vai, entra no Jordão, banha-te e ficarás curado.» Ele pôs-se a refletir em si mesmo e disse para consigo: «É apenas isto? Vim da Síria à Judeia e disseram-me: vai até ao Jordão, banha-te e ficarás curado. Como se não houvesse rios melhores no meu país!» Os servos diziam-lhe: «Senhor, por que não fazes o que diz o profeta? Fá-lo, experimenta.» Então ele foi até ao Jordão, banhou-se e ficou curado. Que significa isto? Viste a água, mas nem toda a água cura; mas a água que contém em si a graça de Cristo cura. Há uma diferença entre o elemento e a santificação, entre o ato e a eficácia. O ato realiza-se com água, mas a eficácia vem do Espírito Santo. A água não cura se o Espírito Santo não tiver descido e consagrado aquela água. Leste que quando nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o rito do batismo, veio ter com João e este disse-Lhe: «Eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti. E Tu vens até mim?» (Mt 3,14). […] Cristo desceu; João, que batizava, estava a Seu lado; e eis que, como uma pomba, o Espírito Santo desceu. […] Por que desceu Cristo primeiro e em seguida o Espírito Santo? Por que razão? Para que o Senhor não parecesse ter necessidade do sacramento da santificação: é Ele que santifica; e é também o Espírito que santifica (Ambrósio  de Milão (340-397), Bispo de Milão – Quaresma para o Santo Batismo).

 Autores dos textos

Romano, o Melodista (490-556)
Nascido por volta de 490 em Emesa (hoje, Homs), na Síria foi um teólogo, poeta e compositor, "pertence à grande plêiade de teólogos que transformaram a teologia em poesia", nas palavras do Papa Bento XVI. Sendo uma figura pouco conhecida, Romano permanece na história como um dos mais representativos autores de hinos litúrgicos. Romano não adotou o solene grego bizantino da corte, mas um grego simples, próximo à linguagem do povo. Vivendo em Constantinopla por volta do final do reinado de Anastácio I Dicoro (518), teria tido uma visão da Virgem Maria. Maria o teria obrigado a engolir uma folha enrolada, o que teria lhe dado o dom da poesia [3] . Considerado santo por várias tradições cristãs, bem como padroeiro do canto ortodoxo, segundo algumas fontes teria morrido por volta de 560.

Máximo de Turim (380-465)
Foi um bispo e escritor de teologia e é considerado santo e mártir. É o primeiro bispo que se tem memória em Turim, considerado o fundador da sua diocese, erigida pela iniciativa de santo Ambrósio e de santo Eusébio de Vercelli, de quem o próprio São Máximo se declarava discípulo[1] . Foi sucedido por São Vítor de Turim. Seu nome consta do martirológio romano no dia 25 de junho e a cidade de Turim o considera seu santo padroeiro. Do seu grande empenho apostólico dão testemunho os numerosos sermões e homilias, escritos com estilo claro e persuasivo. Num deles ele exorta com firmeza seus fiéis, amedrontados pela aproximação do exército dos bárbaros a empunhar as armas do “jejum, daoração e da misericórdia” e aos medrosos que se apressavam a fugir da cidade diz: “É injusto e ímpio o filho que abandona a mãe no perigo. A Pátria é sempre uma doce mãe" . Uma hagiografia sua, pouco confiável, foi escrita depois do século XI. Ela afirma que um clérigo um dia seguiu São Máximo com más intenções até uma capela afastada onde ele gostava de se retirar para rezar. O clérigo subitamente ficou com tanta sede que pediu ajuda a Máximo. Uma corça apareceu e o santo a fez parar para que o clérigo pudesse tomar de seu leite. Esta lenda explica o fato de o santo, por vezes, ser representado na arte apontando para uma corça.


André de Creta (650-740)
Também conhecido como André de Jerusalém,  foi um bispo, teólogo, homilista e hinógrafo. Nascido em Damasco de pais cristãos, André ficou mudo do nascimento até os sete anos, quando, de acordo com o seu hagiógrafo, ele foi milagrosamente curado após ter recebido a Eucaristia. Ele começou a sua carreira eclesiástica com quatorze anos na Lavra de Mar Saba, perto de Jerusalém, onde ele rapidamente se fez notar pelos seus superiores. Teodoro, o locum tenens do Patriarca Ortodoxo de Jerusalém o fez arquidiácono e o enviou para a capital imperial Constantinopla como seu representante oficial no Sexto Concílio Ecumênico (680 - 681), que fora convocado pelo imperador bizantino Constantino Pogonatos para conter a heresia do monotelismo. Logo após o concílio, ele foi chamado de volta de Jerusalém para Constantinopla e foi apontado como arquidiácono da grande Igreja de Santa Sofia. Eventualmente, ele foi ascendeu à posição de metropolita de Gortina, em Creta. Ainda que ele fosse um adversário do monotelismo, ele compareceu ao sínodo de 712, no qual os decretos do concílio ecumênico foi abolidos. Mas no ano seguinte ele se arrependeu e retornou à ortodoxia. Dali em diante ele se ocupou em pregar compondo hinos e seus discursos são conhecidos pela escolha das frases, digna e harmoniosa, e ele é reconhecido por isso como um dos principais oradores da época bizantina.
Historiadores eclesiásticos não compartilham de uma mesma opinião sobre a data de sua morte. O que se sabe é que ele morreu na ilha de Mitilene enquanto retornava para Creta a partir de Constantinopla, onde ele estava para resolver assuntos da Igreja. Suasrelíquias foram posteriormente transladadas para Constantinopla, pois, em 1350, elas foram vistas pelo peregrino russo Estevão de Novgorod no Mosteiro de Santo André de Creta (atual Mesquita Koca Mustafa Paşa), na capital imperial.

Efrém, o Sírio (306-373).
Foi um prolífico compositor de hinos e teólogo do século IV, venerado por cristãos do mundo inteiro, especialmente pela Igreja Ortodoxa Síria, como um santo. Nascido em Nísibis, foi discípulo de Tiago de Nísibis na famosa escola da cidade. Escapando do avanço do exército sassânida, fugiu para Edessa onde lecionou por muitos anos. Autor de uma grande variedade de hinos, poemas e sermões de exegese bíblica, em verso e em prosa. Suas obras são exemplos de uma teologia prática voltadas para defesa da igreja em tempos turbulentos e tornaram-se tão populares que, por séculos após a sua morte, autores cristãos escreveram centenas de trabalhos pseudepígrafes em seu nome. Efrém tem sido considerado o mais importante de todos os padres da Igreja na tradição siríaca da igreja.

Proclo de Constantinopla (390-446),
Foi um arcebispo de Constantinopla. Foi responsável pela conversão do tio de Melânia, a Jovem, Volusiano. Amigo e discípulo de João Crisóstomo, ele se tornou um secretário do arcebispo, Ático (406-425), que também o ordenou diácono e padre. O sucessor de Ático, Sisínio I (426-427), o consagrou bispo da cidade de Cízico, porém seus habitantes se recusaram a aceitá-lo como seu bispo e ele permaneceu na capital imperial. Com a morte de Sisínio, Nestório o sucedeu como arcebispo de Constantinopla (428-431). No início de 429, num festival em homenagem à Teótoco (Virgem Maria), Proclo fez o seu celebrado sermão sobre a encarnação de Jesus, que posteriormente foi inserido no começo dos atos do concílio de Éfeso. Quando o arcebispo Maximiano (431-434) morreu na quinta-feira santa, Proclo foi imediatamente conduzido ao trono com a permissão do imperador Teodósio II e dos bispos reunidos em Constantinopla. Sua primeira preocupação foi o funeral de seu antecessor. Em seguida, ele enviou aos seus pares, o Patriarca de Alexandria Cirilo e o Patriarca de Antioquia João, as costumeiras cartas sinódicas anunciando sua ascensão, que foi aprovada por ambos. Em 436, os bispos da Armênia o consultaram sobre uma certa doutrina existente em seu país e a atribuíram a Teodoro de Mopsuéstia, pedindo que ele a condenasse. Proclo respondeu no ano seguinte, na celebrada carta conhecida como "Tomo de Proclo", que ele enviou para os bispos do oriente pedindo que eles a assinassem e que se juntassem a ele na condenação da doutrina levantada pelos armênios. Eles aprovaram as cartas, mas, por admiração a Teodoro, hesitaram em condenar as doutrinas atribuídas a ele.  Proclo respondeu que ainda que ele desejasse que os trechos anexados ao seu Tomo fossem condenados, ele não os tinha atribuído a Teodoro ou a nenhum outro indivíduo, não desejando assim condenar ninguém pessoalmente. Uma ordem imperial conseguida por Proclo, declarando seu desejo de que todos deveriam viver em paz e que nenhuma acusação deveria ser feita contra ninguém que tenha morrido em comunhão com a igreja apaziguou os ânimos. O caso como um todo serviu para demonstrar a moderação e o tato de Proclo. Em 438, ele transferiu as relíquias de seu antigo mestre, João Crisóstomo, de Comana Pôntica para Constantinopla, onde ele as enterrou com grandes honras na Igreja dos Doze Apóstolos.  Este ato reconciliou a igreja com os seguidores de João, que tinham se separado quando ele foi injustamente deposto de seu patriarcado. Em 439, a pedido de uma missão diplomática de Cesareia, na Capadócia, ele selecionou como seu novo bispo, Talássio, que estava prestes a ser nomeado como prefeito pretoriano do Oriente. Neste período Constantinopla foi varrida por inúmeros terremotos que ocorreram em um período de quatro meses o que obrigou a população viver temporariamente nos campos próximos. Proclo morreu provavelmente em julho de 446.

Ambrósio de Milão (340-397).
(Aurélio Ambrósio) Foi um arcebispo de Mediolano (moderna Milão) que se tornou um dos mais influentes membros do clero no século IV. Ele era prefeito consular da Ligúria e Emília, cuja capital era Mediolano, antes de tornar-se bispo da cidade por aclamação popular em 374. Ambrósio era um fervoroso adversário do arianismo. Tradicionalmente atribui-se a Ambrósio a promoção do canto antifonal, um estilo no qual um lado do coro responde de forma alternada ao canto do outro, e também a composição do Veni redemptor gentium, um hino natalino. Ambrósio é um dos quatro doutores da Igreja originais e é notável por sua influência sobre o pensamento de Santo Agostinho.